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21/10/2018

A mulher bonita atrai desejos, a mulher fraca atrai violência


[Artigo para o público em geral]

Se há um erro sobre a motivação para a violência contra a mulher é o de culpar a sua beleza ou o seu comportamento sexy. Isso atrai desejos, a violência é atraída por algo bem diferente da beleza. A violência que atinge a mulher, especialmente a violência física, é semelhante a que atinge todos os “cordeiros imolados” – a fraqueza, ou melhor, a vulnerabilidade. O vulnerável é a criança, especialmente a criança pobre; o animal, especialmente o cachorro; Jesus, especialmente aquele que se colocou como pedindo para ser o “cordeiro”; a mulher, especialmente a mulher pobre; o indivíduo da população LGBT, especialmente, claro, o que está mais carente.

Os antropólogos que estudaram os ritos de sacrifício são os melhores para dizer sobre a “violência contra vulnerável”, sobre a violência contra a mulher. A questão toda é esclarecida se estudamos o “cordeiro imolado” ou o “bode expiatório”. A história pode ser contada assim, como segue. Há uma violência generalizada e a paz não vem. Tudo caminha aos tropeços em uma sociedade que interrompe suas atividades por conta de onda de violência. Violência gera violência por uma única razão: a vingança. Como fazer cessar isso? Basta dar a todos a chance de uma violência máxima – periódica ou semi-definitiva. Basta marcar um rito sacrificial em que aquele elemento mais fraco da sociedade se presta a ser violentado de modo que todos descarreguem nele a fúria, sem que se pense em qualquer revés. O fraco é aquele que ninguém irá vingar.

Esse ensinamento sobre a violência contra os fracos, que tanto atrai as populações ao longo de milênios, e que se tornou símbolo de uma das principais religiões monoteístas do Ocidente, o cristianismo, é o que temos na mão, concretamente, para explicar a violência contra a mulher. Acreditar que, por conta da questão sexual ser mais midiática, é ela que atrai a violência é um grande equívoco. A mulher atrai a violência contra ela por conta de que se espera que ela, como o cachorro a criança, o pobre e os LGBTs, não irão trazer a vingança. Eles permitem o gosto pelo exercer da força da violência e ainda por cima colaboram com a ideia de que, a partir daquela violência, estaremos em  paz. Quem irá reclamar pela mulher pobre, pelo cachorro ou pela criança? E se alguém reclamar, quem lhe dará atenção?

A ideia liberal e da sociedade moderna de proteção dos fracos, dos “vulneráveis” vem da percepção do que a religião cristã mostra, ou talvez de seu semi-fracasso. O fraco atrai a condição de “bode expiatório” e, se ele não é compensado com proteção exterior – estado, ONG, sindicato, lobbies, grupos de defesa de minorias etc. – capaz de lhe ajudar desinteressadamente (portanto, não milícias!), sua imolação torna-se periódica. A ideia da última violência se torna a violência periódica. Todos os dias encontramos o nosso judeu para surrar!

Esse comportamento humano não é exclusivamente humano. Ele se verifica também em grupos de animais. Escrevi que não é a homossexualidade somente que pode, talvez, ser chamada de natural (se é que faz sentido isso), mas que a homofobia certamente é natural. Os macacos a praticam. Após sexo com aquele macaco mais fraco, que permite o coito, os outros macacos o surram. E não raro ele se torna o “bode expiatório”. É a mesma lei que é vigente nas prisões de nossa sociedade moderna.

A lei liberal de proteção dos vulneráveis revela a compreensão de que o mecanismo de eleição do cordeiro, ao contrário do que Jesus pensava, não elimina a violência. Colabora para avançar a ideia do possível perdão, a ideia de se ter cuidado com os mais fracos. Mas a violência, para ser estancada, precisa que ninguém tenha o direito de olhar o outro como potencial cordeiro para o ritual do próximo sacrifício. Os alvos preferidos, os fracos, precisam ser protegidos de modo a não parecerem fracos. Mas fracos sempre existirão e sempre serão uma tentação fazer do sacrifício deles o momento para a descarga emocional necessária para o recomeço. Um recomeço de paz, porque ninguém virá vingar o que se fez com o sacrificado. Uma sociedade que sabe disso, só aperfeiçoa – e não diminuiu – as leis de proteção ao vulnerável.

Muitas mulheres não percebem que são fracas por serem mulheres. E logo sofrem a violência doméstica, a pior das violências, após noites de amor. Elas não sabem que o gato no Egito antigo, eleito um deus e super reverenciado, tinha o seu dia marcado para vir à morte – seria ele o próprio sacrificado! Afinal, o que há de mais fraco que um gato bem tratado, que vem comer na mão e que perdeu todas as defesas contra a maldade humana? Nunca uma sociedade colocou como sacrifício um leão ou o próprio King Kong. Kong só virou ele próprio vitima da violência quando mostrou-se um pseudo-forte – um forte na sociedade moderna, onde parecer forte às vezes é sinal claro de que é o fraco. Os aviões logo perceberam que Kong era, da na verdade, o fraco. O novo cordeiro. É como uma mulher com revolver na mão – é aí que ela desperta ainda mais a gana do seu algoz.  “Se você é o filho de Deus, reaja então, tire-nos daqui”, blasfemou o ladrão na cruz lateral. E lá embaixo, alguns gritavam: “olha lá o rei dos judeus”. Sempre a ideia de lembrar ao fraco que ele é o fraco, que se aparentou força, era uma falsa força. Isso faz todos lembrarem de que estão massacrando o fraco e que, portanto, a paz virá. Ninguém ousará se importar e clamar vingança se o fraco é mesmo o fraco. E que sabor delicioso se ele é o pseudo-forte!

Enquanto uma parte das feministas continuarem a falar em “machismo”, “capitalismo” e “patriarcalismo” para explicar a violência contra a mulher, elas estarão olhando para as mulheres e vendo-as todas seminuas e de botas longas. Mas as mulheres não andam assim. E nem é assim que o imaginário dos violentadores a enxergam. Mesmo as mais recatadas, sofrem violência. Pois a violência contra a mulher tem no sexo uma ideologia. Quando se diz que uma mulher é atacada por conta de desejo sexual do “homem predador”, o que se está fazendo é dar margem para a ideologia que não nos deixa ver que a atração pela mulher para ser alvo de violência é a atração que o nazista sente pelo judeu.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo.

Gravura: um artista vem retratando a mulher que cortou os seios, em protesto ao “breast tax” na Índia do século XIX. Sobre o breast tax veja: http://edtimes.in/2018/01/this-woman-from-kerala-cut-off-her-own-breasts-in-protest-against-breast-tax-or-mulakkaram/

Sobre a história dessa mulher rebelde: https://www.youtube.com/watch?v=PYkN9EVqWB0  

 

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10 Responses “A mulher bonita atrai desejos, a mulher fraca atrai violência”

  1. Thiago Leite Ribeiro
    25/06/2018 at 15:20

    Esse texto é obra de arte.

  2. kaio
    06/06/2018 at 01:44

    Se um estrangeiro entrasse sozinho em um Grupo hierárquico seria natural que ele passasse a ser visto como o responsável pelos eventuais infortúnios que o grupo possa ter e fosse usado em sacrifício para interromper as agruras. Talvez, no início o veriam como uma novidade, algo exótico e inferior, e no final seria morto.

    Também há outra possibilidade: O estrangeiro prevendo sua morte passa a pregar a salvação. Alguns membros do grupo se compadecem com o estrangeiro, se unem em torno de sua figura a fim espalhar a mensagem. O estrangeiro se torna um messias.

    Passado um tempo, depois de todos os conflitos, a humanidade compreende a mensagem e exorcizam-se todos os demônios definitivamente. Todas as dualidades desaparecem: o bem e o mal, o homem e a mulher, o passado e o presente, o homem e o animal, a vida e a morte. A humanidade entra em uma simbiose cíclica. Todos são andróginos, todos são imortais, todos são anjos, todos são um.

    Antes que isso pudesse ser possível alguns estrangeiros vindos de países ocidentalizados vão a algumas tribos para descrevê-las, esses estrangeiros se tornam antropólogos.

    Os estrangeiros não eram mortos porque essas tribos desenvolveram técnicas que consistia em ritos cíclicos. Nos ritos de passagem era necessário morrer para viver, e nessa morte se exorcizavam todos os demônios que poderiam causar desarmonia na tribo.

    As técnicas das tribos superam as técnicas do homem ocidental que tem sacrificar o outro para tem um pouco de sensação de prazer e paz.

    Os membros da tribo assumem os demônios em si mesmos, e sacrificam a si mesmos para poder exorcizá-los. Entram em catarse.

    Os ocidentais não alcançam a catarse, vivem atormentados pelos demônios e transfiguram os demônios internos no outro externo. Além disso, alimentam os demônios por meio dos vícios. Perde m o controle sobre as suas vidas, passam a agir de maneira automática se tornam máquinas, escravos.

    • 06/06/2018 at 05:54

      O segredo para ser bode expiatório não é ser estrangeiro, mas ser sem vínculos que vingança, frágil por estar isolado.

  3. kaio
    05/06/2018 at 03:13

    Um antropólogo correria o risco de ser violentado se passasse a conviver em uma tribo isolada?

  4. Kaio
    26/05/2018 at 02:51

    Qual a reação do forte quando as válvulas de escape violentas vão se fechando?

    • 26/05/2018 at 03:03

      Não há no meu texto teoria da “válvula de escape”, você não entendeu o conceito que utilizei, por favor, leia o texto de novo sem “cabeça cheia”.

  5. kaio
    26/05/2018 at 02:38

    O que acontece quando as válvulas de escape de stress vão se fechando para os fortes? Qual a reação deles quando não há possibilidades de exercer sua potencia?

    E no caso dos fracos, quando conseguem ser plenamente protegidos pelo estado, deixam de ser fracos?

    • 26/05/2018 at 03:04

      Kaio, não há “potência” e nem “fortes” no meu texto. Leia meu texto pelo que ele tem, não por outros textos.

  6. Matheus
    25/05/2018 at 14:03

    Muito boa explicação Paulo.

    O judeu era o pseudo-forte, rico, intelectual, mas quando o nazismo pegou, eles mesmos fizeram a lista dos próximos a morrer, aceitaram aquela situação como verdadeiros fracos. Não li o original de Hannah Arendt, não sei se ela aborda assim, mas é uma visão possível, pelo seu texto, ou errei?

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