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16/11/2018

Há uma “onda conservadora” no mundo, na qual Bolsonaro surfa?


[Para o público acadêmico]

A ideia básica de Byung Chul Han é a de que fazemos auto-exploração convencidos (ideologicamente) de que estamos no caminho da autorrealização. Tornamo-nos empresários de nós mesmos, ainda que não sejamos patrões – eis a tônica do neoliberalismo. Estamos convencidos de que trabalhamos para nos realizarmos, até mesmo quando o trabalho nada tem a ver conosco, com o que gostamos. Essa falsa auto-realização esconde o esforço do autodesgaste, o cansaço intenso, o apego a remédios e, enfim, nossa exagerada fuga para o mundo dos jogos eletrônicos e nossa necessidade de fundir entretenimento e trabalho.

As reações neofascistas que predominam no mundo atual, e que Fukuyama prefere chamar de momento do populismo de direita, podem ser tidas como fruto desse cansaço da auto-realização falsa. Estamos num grau inaudito de esforço, tanto do físico quanto do cérebro e da alma, mas ao invés de pedirmos para parar, acentuamos a necessidade de disciplina dos outros, pois achamos que são eles, nossos vizinhos, que estão folgados, e que por isso “sobra para nós”. Quando todos pedem isso, surge o neofascismo, ou seja, o culto da vida dura, disciplinada para além do possível, regrada em termos de brutalidade – o canto da sereia que nos diz que quando vivíamos no passado idílico, sem geladeira, éramos felizes. Gays, geladeiras, internet, negros, mulheres, viagra, crianças e tudo o que nos faz “nos modernizar”, representa um cansaço, e também desafios de uma modernidade extenuante. Os outros precisam parar de serem folgados e diminuir nossa carga” É o que nos vem à cabeça. O fascismo é o culto ao trabalho. “O trabalho liberta”, assim dizia a placa no portão de Auschwitz. Peter Sloterdijk lembrou bem que Mussolini reiterava que a vida confortável era a inimiga do fascismo.

Nossa sobrecarga atual, que nos engana a respeito de ser autorrealização, não deixa de nos incentivar ao abandono da ideia de Marx do homem livre do trabalho, pois isso nunca vem, e então culpamos o colega ao lado por ele não trabalhar e deixar tudo ao nosso encargo. Por sua vez, ele, o colega, pensa o mesmo de nós. Não à toa os líderes atuais adoram chamar seus opositores de vagabundos. É a palavra que toda hora sai da boca do Bolsonaro, quando ele quer se referir às esquerdas. Ele as chama pelo seu vocabulário de militar que nunca foi para a guerra, e que sempre tomou o bandido de rua como seu inimigo: vagabundo. E de resto, toda mulher, para ele, é vagabunda. Afinal, elas ficam nove meses de folga. Segundo ele, engravidam exatamente para não trabalhar. Ele é, da boca para fora, o anti-vagabundo. Justo ele que, durante trinta anos, nunca trabalhou.

Eleições contra partidos que prometem a verdadeira autorrealização, que seria o fim do mundo do trabalho e o advento de uma sociedade em que o indivíduo pudesse se realizar no deleite, é o tom do momento. A utopia irrita, muitas vezes, principalmente quando ela deu indícios, em algum momento, que não era utopia, e sim algo a ser realizado historicamente e repentinamente. Se passou tal impressão errada, vira algo do ódio.

Paulo Ghiraldelli Jr., 61, filósofo.

Gravura: bandeira do movimento internacional antifascista

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19 Responses “Há uma “onda conservadora” no mundo, na qual Bolsonaro surfa?”

  1. Augusto P. Bandeira
    31/10/2018 at 20:41

    Mas os brasileiros, de modo geral, estão mesmo sobrecarregados.

    O Estado brasileiro arrecada impostos em grande volume e, ao invés de serviços públicos em qualidade condizente com a quantia recolhida, o brasileiro não se sente atendido pelo setor público e recorre às opções oferecidas no mercado.

    Exemplos: quando crianças estudam em colégio particular, seus responsáveis pagam por educação duas vezes (mantendo as escolas públicas, que não lhes atendem, via impostos e a mensalidade propriamente), o mesmo com quem tem plano de saúde ou vigilância privada no caso dos comerciantes.

    Além disso, há que se entender a raiva do povo quando aqueles que se dedicariam a melhorar as condições de vida enriquecem às suas custas e ainda aparelham o Estado para ganhar dinheiro sempre e de qualquer modo e, pior ainda, quando aqueles que lidam com o trabalho intelectual compactuam com isso ao corroborar as narrativas de “perseguição”, “golpe”, “risco à democracia”, “complô das elites” e por aí vai.

    Talvez a energia dispendida na construção do Paraíso tenha sido liberada em explosões ao se constatar que ou o Paraíso não existe ou não se pode entrar nele.

    Então não há que se ver como ruim quando as pessoas querem o suficiente para atuar no mundo por si mesmas em vez de ter fé no Estado.

  2. Fabiano
    31/10/2018 at 16:06

    Somos conservadores com muito orgulho, progressistas com suas pautas abjetas e contrárias a família q se lasquem!

    • 31/10/2018 at 16:30

      Conte-me, Fabiano, como funciona sua família, essa família tradicional sua. Pelo que vi, você nem sabe se o seu pai é seu pai mesmo!

  3. Anderson Silva
    30/10/2018 at 18:33

    muita gente doida e com ódio………… e aumentando……..

  4. Erik Kierski
    30/10/2018 at 17:39

    É estranho alguém como o tal do Roberval dizer que é sociólogo, mas não conseguir diferenciar entre o movimento histórico chamado fascismo, e o comportamento que evidencia traços de fascismo em semelhança àqueles do movimento. E olha que tenho percebido esse tipo de burrice em vários estudantes de filosofia e sociologia, o que é preocupante. Mas enfim, fiquei algum tempo sem ler seus textos, apenas assistindo aos vídeos, e me parece que a qualidade do conteúdo só aumenta. Obrigado por manter esse seu ativismo, inteligente e contra a burrice, cada vez maior na internet.

  5. Mario
    30/10/2018 at 14:43

    Perfeito professor. Aliás, é até facil de observar esse comportamento de desgaste de setores da sociedade

  6. Eduardo
    30/10/2018 at 14:11

    Paulo.
    Depois você pode fazer um vídeo comentando sobre os movimentos que estão surgindo de apoio a imprensa livre e republicana?
    Muitos intelectuais estão fazendo apoio público à Folha e outros órgãos.
    Eu já fiz minha assinatura e sei que você é assinante. Acho que é um movimento bacana que vai começar a acontecer de valorização da informação com veracidade contra a fakenews, na linha do que você já vem falando.
    Grande abraço. Continue com os textos e os vídeos estão ótimos.

  7. LMC
    30/10/2018 at 11:32

    Boçalnaro quer acabar com o Ministério
    da Cultura.Algo que nem Maluf fez,quando
    foi Prefeito e Governador de SP.

  8. Eduardo
    30/10/2018 at 07:20

    Deixe de ser mentiroso Roberval.

    • 30/10/2018 at 10:20

      Eduardo, esse Roberval eu mandei pastar porque vi que é apenas um pedante que acha que sabe alguma coisa.

  9. roberval nunes
    29/10/2018 at 23:53

    não, aprendiz de Pitágoras! já fiz o supletivo do segundo grau. sou sociólogo com pós-doutorado em sociologia do conhecimento pela universidade de Cambridge, na Inglaterra. se o Bolsonaro fosse realmente “fafascista”, como o senhor e seus sequazes costumam vociferar aos quatro ventos, o senhor, sua lida esposa, seu filho ´filósofo também e, sobretudo, o seu cãzinho pittoco, que o senhor tanto ama mais do que qualquer outra coisa no universo, já teriam sido todos mortos a mando dele, por algum membro de sua “gestapo”! portanto, arremedo de leão lobo da filosofia, deixe de ser todo!

    • 30/10/2018 at 01:18

      Roberval, volte e termine o telecurso primeiro grau. Quando acabar, pode vir aqui comentar. Por enquanto, não deu.

  10. roberval nunes
    29/10/2018 at 21:51

    filósofo, “fascismo”, “nazismo” e seus demais correlatos simplesmente não existem em pleno século xxi. na academia ninguém aborda o fenômeno dessa forma. antes sim, preferimos adotar categorias tais como “autoritarismo” e suas diversas variantes ideológicas. agora tudo e todos são fascistas? exagero!

    • 29/10/2018 at 23:30

      Roberval, tenta terminar o supletivo e depois você volta.

  11. 29/10/2018 at 19:21

    Concordo plenamente, Professor.
    O neofascismo chegando com seus ódios, seus preconceitos, sua intolerância, sua agressividade. E pregado por uma pessoa que nunca trabalhou, nunca estudou, nunca pensou. E a plebe ignara e ignava apoia freneticamente, idiotamente, como se a eleição fosse um simples jogo fla-flu, com direito a carreatas e demais baboseiras!

  12. Alex Ricardo
    29/10/2018 at 17:26

    O artista é um exemplo. O fazer da arte não é tratado como um trabalho. Esse fazer da arte incomoda a quem se considera trabalhador tradicional.

  13. Anderson Luiz da Silva
    29/10/2018 at 16:35

    Boa reflexão, a sua, sobre essa sociedade que diz que sem dor não há ganho!

    Atualmente, em rodas de conversa (conversa de butéco), é muito comum ouvir pessoas dizendo que o que falta é mais dureza, brutalidade, vigor físico, força moral, etc….. Uma das imagens que vivem tentando ressuscitar é a dos povos da antiguidade romana. Ficam a tomar e a dizer que o que levou a derrocada foi o luxo, a boa vida, o afrouxamento do corpo e da moral……. Dizem que nossa sociedade, a brasileira, está se afeminando, por isso seria importante eleger o tal do coiso…. Vixe, está difícil ir para o bar tomar uma sossegado..

  14. alexandre duarte rodrigues
    29/10/2018 at 11:42

    Pior, parece uma maldição imposta a quem quer uma vida mais leve, ultimamente até quando queremos rir já nos julgam vagabundos, até pra sonhar já nos etiquetam com receitas prontas pro sucesso e na maioria das vezes a receita sempre bota no c…. dos outros. Utopia cansa os fracos de entendimento e se cansa deve ser coisa de vagabundo.

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