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25/05/2017

O defunto nosso de cada dia, comei hoje!


Peter Sloterdijk defende a ideia de que uma história que responda aos nossos dias deve ser uma história que saiba integrar e uma só narrativa o que se deixava de lado por não possuir história: o mundo da natureza. Também Bruno Latour, com a ideia de parlamento das coisas, participa da mesma tese. Sei bem que não podemos descrever o ocorrido com os frigoríficos no Brasil se não estivermos atentos às sugestões de Sloterdijk e Latour.

O caso dos frigoríficos agora denunciados diz muito. Tudo começa com a natureza invadida. Animais são mortos para que o homem se alimente. Assassinato completamente desnecessário. Mas onde há um crime, não se fica no número baixo deles. A carne que consumimos, mesmo que dita “boa”, vem da Morte, e vindo dessa senhora, sempre há de se duvidar que possa nos dar boa coisa. A carne que chega ao prato da humanidade nada é que um tubo de hormônios desgarrados, e estes logo são injetados nos corpos de todos, gerando monstruosidades que fazem os sistemas públicas de saúde, do mundo todo, estarem em déficit. Desse crime para o crime de vender carne podre e, então, se associar às benesses de acobertamento oficial e, então novamente, participar da corrupção dos partidos e atentado contra a democracia vigente, é só um passo. Um passo dado em vários lugares do mundo. Um passo dado no Brasil.

O pacote desembrulhado por Tony Ramos e Fátima Bernardes é agora um pacote também desembrulhado pela polícia federal. O crime político sobe no lombo do crime moral hormonal e do crime maior que é a crueldade contra os animais. Afinal, hábitos alimentares não são “meros hábito alimentares”, como o midiagogo disse, na brilhante tese sobre a igualdade da cenoura e da vaca, que não sei se vai ou não ser publicada pela Unicamp (o nome do autor da tese é bem significativo). Hábitos alimentares tem a ver com etiqueta. Etiqueta é uma “pequena ética”. O gosto alimentar é uma questão ético-moral. Não é uma questão só higiênica e médica. Sempre foi do campo da filosofia. Quem come defuntos pode muito bem ficar passivo diante do dinheiro feito às custas do defunto, que é então utilizado para minar as bases de nossa sociedade. A corrupção dos frigoríficos é a face da moeda voltada para a política, enquanto que a própria instituição do frigorífico é já a outra face voltada para a política alimentar. Uma política alimentar calçada na crueldade não pode alimentar, só pode, mesmo envenenar. Há aí todo o pecado.

A falta moral contra o animais não tardaria a se voltar contra os homens. Estamos a cada dia entupindo nossos tubos internos com carne podre, pois toda carne é podre. O pecado já vem com a sua punição. E o mais terrível disso é que, como arte do demônio, ele nos vicia. Há muita gente viciada em  defunto. Gente que é tão viciada em defunto que talvez não viva para usufruir do dinheiro da corrupção gerada pelos frigoríficos. Atentem para a trajetória médica dos políticos, e você saberá do que estou falando.

Paulo Ghiraldelli Jr, 59, filósofo. São Paulo, 17/03/2017

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8 Responses “O defunto nosso de cada dia, comei hoje!”

  1. LMC
    20/03/2017 at 14:59

    Vale a pena ler o que Sakamoto escreveu
    sobre os “defensores” da indústria da
    carne metidos a “nacionalistas”.

  2. leo Rapozo
    20/03/2017 at 11:00

    Vegan apoia…nao como cadaveres e nenhum produto q seja fruto da exploraçao e escravidao animal…paz e empatia para os povos o planeta e os animais eh mais q um lema deveria ser uma meta para a humanidade pois com certeza absoluta faz parte da evoluçao da nossa especie…nao somos mais trogloditas e ja que vivemos no seculo 21 nao precisamos mais agir como tais…evolua eh sua unica saida ou continue alimentando canceres e sustentando assassinos e escravocratas. Leo Rapozo… Live in peace live vegan.

  3. Guilherme Picolo
    18/03/2017 at 15:31

    Para quem tem por baliza ética o “alterum non laedere”, – não fazer mal e não causar o sofrimento alheio -, ou, sendo-lhe impossível, minimizar os danos produzidos, é uma vergonha e contrassenso consumir carne, ainda mais a produzida em escala industrial (é uma mea culpa, inclusive!)

  4. Henrique
    18/03/2017 at 12:33

    Fiquei decepcionado com aquele filósofo que aparece no jornal da Televisão

    • 18/03/2017 at 14:17

      Se é um dentuço careca, esqueça, não é filósofo. Se há outro lado se passando por filósofo, também careca e gordo, esqueça, é só um cara que fala do que não leu

    • Guilherme Picolo
      18/03/2017 at 15:38

      Aquele cara da TV é um grande embusteiro. É o tipo daquele colega de faculdade que lê a orelha do livro e sai por aí divagando sobre a obra, como se fosse seu livro de cabeceira

  5. Eduardo Rocha
    17/03/2017 at 20:29

    É o futuro asséptico chegando. Talvez esse fato sirva para algo. Os ricos e pessoas escolarizadas evitarão a prática do consumo de carne (uma espécie de tendência que será reproduzida por outros).
    Grande parte das imagens do instagram são isso. Imagens de um “estilo de vida” com pratos, alimentos não gordurosos, clínicas estéticas e atividades físicas. Uma vida performática. A imagem diz: “O que eu como me deixa assim. E você? Não quer ser assim também?” É preciso não só dizer mas mostrar que eu faço parte disso. E são eles que dão o padrão de beleza. Uma sociedade do higienismo mas ao mesmo tempo que quer pular o seu muro para esse espaço. Uma espécie de elite. Imagens que se reproduzem porque para ser desse mundo é necessário abandonar o antigo. Que termina também em uma sensação do “estou ficando para trás, preciso me atualizar”. A prática do consumo de carne, será tipo algo retrógrado, ultrapassado e de pessoas decadentes onde a decadência se apresentava no próprio corpo. Aí vai junto a auto superação ascética. Uma pessoa dizer que não come carne era algo espantoso. Agora as pessoas lhe olham e dizem “muito bem”.

    • 17/03/2017 at 21:14

      Eduardo você está entendendo pouco as coisas. Está tentando, mas está engolindo muita propaganda. Higienismo e ascetismo são outras coisa, está usando errado.

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo