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27/05/2017

Montaigne, os animais e o humanismo


Animais não devem sofrer crueldades de modo algum. Michel de Montaigne tinha essa lei no coração. Quando os movimentos de defesa dos animais se colocam hoje em visibilidade até agressiva, à primeira vista acreditamos estar diante de um novo pensar. Quase! Ainda estamos no interior da vaga humanista.

O humanismo é uma grande onda cultural nascida no Renascimento. Tirou Deus como referência central e colocou o homem. Mas não deslizou sobre os tempos modernos de modo igual e unificado. Duas grandes acepções de autocompreensão do humano estiveram presentes no humanismo. Uma delas, considerou o homem a partir de recortes, digamos, naturais. O homem é naturalmente este homem e não aquilo lá que não é homem – o escravo, a mulher ou a vaca. Assim, o humanismo se tornou imperialista e excludente. Mas uma outra tendência referiu-se antes ao “nós” que ao “homem”, e espraiou-se também como um movimento de inclusão. Sob essa segunda tendência, mais homens foram incluídos na “condição humana”: mulheres, crianças, escravos, povos não europeus passaram a ser “gente como nós” e, portanto, por consequência, se tornaram humanos.  Esse movimento inclusivo está agora trazendo para o “nós” os animais, com cachorro em primeiro lugar.

Cachorros não se tornarão humanos. Mas o “nós” vai se ampliar e a semântica do termo “humanização” vai continuar a dar o tom. Hoje o termo “humano”, na condição adjetivante, quer dizer, por decisão do Renascimento e do humanismo, alguma coisa como “não cruel” ou “civilizado” etc. Pois os cachorros integrarão esse espaço aberto para o “nós”, exatamente porque nós, humanos, somos os não cruéis, os que abraçamos outros, os que incluem outros, os que tentam uma convivência com outros. O termo “humano”, como adjetivo, é um termo positivo, às vezes até discrepante com a nossa atuação no mundo, que é o de besta selvagem. Essa acepção vem do humanismo, e o comportamento que ela abarca é aquele que deverá proteger também os animais. É um comportamento, inclusive, pertencente sim a uma parte da vaga humanista. Um fio incandescente que não se esgotou.

Montaigne exemplifica bem essa vinculação da consciência de proteção aos animais antes ao humanismo que a qualquer crítica a este. Ele fala da semelhança entre os animais e os homens, de como nossa “realeza” sobre eles é um atributo imerecido, e completa: “não temo confessar a ternura de minha natureza tão pueril que me leva a não conseguir recursar ao meu cão a festa que me oferece fora de hora ou que me pede”. (Sobre a crueldade. Ensaios. São Paulo: Companhia das Letras, 2010, p. 281). Após isso, Montaigne lembra dos benefícios aos animais vindos de várias civilizações antigas, inclusive de hospitais para eles, criados pelos turcos, ou aposentadoria, em várias situações da Grécia antiga. Elenca inúmeros povos que ergueram monumentos póstumos para animais de valor. Montaigne fala assim no seu estilo de renascentista, como se estivesse ensinando a lição dessa época: vamos integrar saberes antigos aos novos e, fazendo isso, lembremo-nos de como os antigos mais sábios trataram os animais. Também é por essa via que relembra as religiões ligadas às transmigração de almas, presente nos povos orientais e, sabemos bem, também em Platão.

Em várias situações atuais, onde menos esperamos encontrar o humanismo, onde ele nos parece ou derrotado ou mesmo servindo a causas que fazem a desgraça do humano, ele está ali presente não em término, mas ainda se desdobrando. Há momentos em que, como no caso da proteção dos animais ou mesmo da consciência ecológica de um modo geral, que não nos deparamos como alguma coisa pós-humanista, mas autenticamente humanista, na via de uma vertente não excludente. Montaigne é uma prova disso. Sua atualidade nos mostra isso.

Paulo Ghiraldelli Jr., 59, filósofo. São Paulo, 17/03/2017

 

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2 Responses “Montaigne, os animais e o humanismo”

  1. 19/03/2017 at 12:42

    São poucos os autores que falam dos “direitos” dos animais. Montaigne não sabia que falava. Conhecia apenas Meslier.

    • 19/03/2017 at 13:01

      Filósofos não são poucos. Os contemporãneos, então, falam sempre.

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Filósofo