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20/11/2017

“Hábitos alimentares” do cristão


Os platônicos pensaram a alma de modo tripartite, ilustrada de maneira maravilhosamente literária no Fedro, a imagem da biga com os cavalos branco e negro e o intrépido cocheiro. A visão tripartite só perdeu prestígio na modernidade, quanto o thymos praticamente desapareceu, e tudo foi reduzido ao dualismo razão-paixão ou, na linguagem da literatura de auto-ajuda de hoje, intelecto e emoção. Nesse percurso todo, a ideia de alma no Ocidente caiu nas mãos dos cristãos que, sabe-se por qual razão, inventaram algo estranho ao termo, conferindo aos portadores de alma direitos talvez pouco justificáveis. Foi desse preceito que ficamos assegurados de que, segundo a autoridade celeste, valeria a pena ter compaixão só por aqueles que as autoridades eclesiásticas terrenas apontassem.

Quando da descoberta da América houve então um debate teológico sobre se os nativos eram bichos com alma ou sem alma. O mesmo ocorreu com os negros. Não deveríamos de instaurar debate igual, hoje, para termos compaixão pelos animais. Hoje, talvez fosse melhor esquecer a ideia de alma em favor de uma ampliação de outra ideia cristã, bem melhor, que é a de compaixão. Se podemos ter compaixão por homens e mulheres, por qual razão perdemos totalmente a vergonha e o comedimento e assassinamos animais? Por que em um mundo tão capaz de tudo, onde nem é mais necessário o cultivo do aborto, não podemos ampliar nossos sentimentos de amor e, enfim, libertar os animais desse nosso cultivo da crueldade? Afinal, abolir a crueldade do mundo,  não seria exatamente uma forma natural de expandir a ideia do “amor como única lei”, criada por Paulo apóstolo?

Uma vez vi um palestrante da modinha dizer que ficar ao lado dos animais, lutando para que eles não sejam mortos cruelmente em favor da alimentação, seria apenas uma forma de importunar as pessoas, invocando contra “hábitos alimentares”. Interessante postura: uns que se dizem de esquerda se casam logo com os que se colocam à direita no sentido de diminuir a importância do que denominamos “hábitos alimentares”. Eis a regra: “Hábito alimentar” é desimportante  se ele se refere a matarmos nossos parceiros de convívio na Terra; “hábito alimentar” é desimportante se temos que alimentar com ração nossos parceiros de convívio nas cidades. “Isso é mero hábito alimentar” – assim dizem essas pessoas na esquerda e na direita. E nesse pacote, zomba-se do assassinato dos bichos do mesmo modo que se produz um escárnio em relação à vida do pobre. No meu entender, em ambos os casos, a doutrina cristã é posta de lado.

O mundo será melhor não quando todos puderem comer, mas quando se possa comer bem sem que para tal cometamos pecados contra nós e contra o Outro. O dia que os animais estiverem entre nós não mais com “hábito alimentar” e o dia que Nossa Senhora não vier estampada como rótulo da comida dos que não devem ter “hábito alimentar”, teremos um mundo melhor.

Paulo Ghiraldelli, 60, filósofo. Doutor e mestre em Filosofia pela USP. Doutor e mestre em Filosofia da Educação pela PUC-SP. Bacharel em Filosofia pelo Mackenzie e Licenciado em Ed. Física pela UFSCar. Pós-doutor em Medicina Social na UERJ. Titular pela Unesp. Autor de mais de 40 livros e referência nacional e internacional em sua área, com colaboração na Folha de S. Paulo e Estadão. Professor ativo no exterior e no Brasil.

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