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19/08/2017

A vaca balconista


Para Paula e Mariana

A vaca entrou na sala de aula. Não, não era uma escola rural. Era uma escola urbana, ainda que do interior. Ocorreu em 1965, ano em que minha professora começou conosco o livro de “Conhecimentos Gerais”. Neste, havia um capítulo só sobre os animais. Foi o ano que encontrei a vaca.

Ela entrou na minha vida, naquele ano hoje distante, muito bem desenhada. Garbosa, como que carimbada no papel do livro. Na classificação posta, que era o que tínhamos que aprender, lá estava: “animais nocivos e animais úteis”. O rato veio no primeiro quadrinho, a vaca no segundo. Não me lembro o que o rato nos fazia de “nocivo”, e creio nem ter entendido bem esse adjetivo. Mas a noção de “útil” eu peguei. Eis a “função” da vaca: dar leite, carne, couro e até mesmo material para nossos pentes, “pelos chifres e cascos”. Essa última “utilidade” me impressionou muito: a contribuição da vaca para a nossa estética! Dito hoje eu pensaria numa  vaca de Werner Sombart, o sociólogo que insistiu que o capitalismo é fruto do luxo.

Eu imaginava que a vaca, então, ficava numa espécie de bazar, como aqueles que existiam no centro da cidadezinha, ao lado do cinema, do bar Marabá e da Igreja. A vaca devia ficar no balcão, entregando pentes para meninos e meninas. Deveria também, eu presumia, fazer o mesmo com a carne, leite e couro. Nunca me passou pela cabeça, durante aquele tempo, que a vaca não dava nada disso, mas que eram coisas que lhe eram tiradas à força, e que ela pagava com a sua morte tanto o nosso necessário quanto o nosso luxo. Também não fazia ideia, naquela época, que a coisa mais desnecessária de tudo no mundo é a carne, mas eu já sabia que comer carne era um luxo.

A vaca não existia para ser vaca, mas para ser vaca para o homem. Demorou um tempo para eu perceber que esse negócio do “para o homem” é uma invenção meramente humana. Um “puxar a brasa para sua sardinha”.

Acho que a vaca balconista me ajudou muito a não entender a palavra útil como subsidiária da palavra morte. Então depois, já adulto, ao me encontrar com as escola filosóficas do utilitarismo e do pragmatismo, não vi nelas nenhum horror como o que ocorre com outros intelectuais. Útil é alguma coisa efetivamente útil, não um subterfúgio ou eufemismo para fazer sofrer.

“Da vaca tira-se tudo” – assim foi que a professora explicou. Poderíamos falar bem do cavalo que, afinal, nos dava transporte e possuía a capacidade até de ser ator. Os filmes do Zorro mostravam bem que Silver não deixava por menos! Todavia, o cavalo não podia competir com a vaca, ainda que esta, nos filmes, aparecesse no papel de … gado! A vaca realmente nos dava tudo. Meu Deus! Como eu ainda estava longe do tempo que veio depois, quando as mulheres passaram a ser vacas, ao menos no vocabulário das meninas da classe. Elas riam de se chamarem por vacas. Demorei mais um tempo ainda para saber o que queriam dizer. Sim, eu era meio lento!

Por esses dias, agora, o meu novo livro de conhecimento gerais, o jornal, disse que as vacas estavam chegando no exterior já não mais úteis. Foi só então que eu pude entender de fato o que disse lá aquela lição da escola primária. Para certos homens, mais do que eu gostaria, pagar com a vida não basta, é necessário, para ser útil, fazer parte de sua corrupção. Estranho conceito de útil. Mais estranho ainda, nisso tudo, o conceito de vida.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 26/03/2017

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