Eles querem “curar gays”, o que faremos?

01/03/2012

Nos anos oitenta apareceu a “peste gay”. Uma doença terrível, que destruía o sistema imunológico das pessoas. Esse apelido da doença foi dado porque o grupo mais atingido era o dos homossexuais. Logo se passou a dizer que a doença era o “fruto dos gays”. Havia aparecido neles e por eles porque estavam no pecado. Deus finalmente havia olhado de novo para Sodoma e Gomorra, e viria a destruição. Com a destruição, a tão sonhada limpeza do mundo se imporia. Católicos e evangélicos diziam isso. Mas os evangélicos, naquela época, ainda não davam as cartas na nossa sociedade e os católicos menos inteligentes, que diziam essas coisas, logo ficaram em minoria.

Aos poucos, a informação científica derrubou essas falas obscurantistas e começou-se a luta real contra a AIDS. Não a vencemos ainda, mas demos passos importantes contra ela. Caso não tivéssemos perdido tanto tempo na polêmica religiosa, teríamos dados mais passos. Caso os religiosos não tivessem impedido campanhas de esclarecimento, teríamos salvado mais vidas.

Agora vivemos em um Brasil onde um rapaz como o Padre Marcelo tem sucesso não porque segue o catolicismo genérico e, sim, porque recuperou dentro do catolicismo o que havia de mais conservador. Fez isso para poder competir com o crescimento das igrejas evangélicas. Os evangélicos são o lado mais conservador de nossa sociedade atualmente. Possuem o direito de sê-lo, mas estão dando passos em um sentido perigoso. Começam a desejar para todos algo que não faz bem para ninguém: a ampliação do obscurantismo. Lêem a Bíblia de maneira literal, seguem pastores endinheirados e com escolarização precária que fazem mágicas e expulsam demônios, começam a incutir nas suas crianças a idéia de inutilidade da ciência e das artes. Nesse vagalhão escuro e misturado ao oportunismo, resolveram participar da política. Confundem tudo, acham que porque nossa sociedade é religiosa, o estado também deve ser. Mas acontece que o nosso estado é laico exatamente para poder garantir a sobrevivência da liberdade de culto religioso na sociedade. Mas eles pouco se importam com isso, querem fazer valer para todos o que pensam dentro de seus círculos particulares. Nessa tarefa, eles têm buscado quebrar as pernas do estado laico. Eles procuram tornar a República uma presa de uma legislação vigente na cabeça de seus pastores. E eis que dirigem suas baterias na direção dos gays.

Não se trata, então, de falar em “peste gay”, como fizeram os católicos e eles próprios no passado, mas agora, o que os evangélicos inauguram é uma forma terrível de se comportar: decidiram que os próprios gays são a peste. E como não podem simplesmente eliminá-los, como gostaria de fazer Bolsonaro, querem “curá-los”.

Psicólogos evangélicos dizem por aí que possuem “técnicas de cura aos gays”. Um pouco de sangue de Jesus e um tanto bem grande de ignorância e maldade e… pimba: conseguem ampliar o sentimento de culpa de muita gente e “clinicar” em cima desse pessoal. Os gays menos escolarizados caem na rede. A pressão das famílias e o resto de preconceito social contam a favor dos evangélicos e suas técnicas. E eis então que aparece mais uma fonte de dinheiro para essa gente: as clínicas de curar gays. O que ninguém mais falava que era uma doença, surge agora, na boca de gente que à primeira vista até parece ter instrução, como uma doença.

Nossa sociedade aboliu a legislação que considerava a homossexualidade uma doença. Aliás, para ser correto, temos mesmo, hoje em dia, de abolir a noção de “homem” e “mulher” como elementos efetivamente existentes. “Homem” e “mulher” são pólos imaginários de um espectro amplo que, biológica e socialmente, são definidos de forma melhor se cada um de nós puder, ao fim e ao cabo, vir e apontar em que lugar do espectro quer ficar. Essa é a tendência mundial. Aliás, com quase tudo, temos evoluído no sentido de pensar por meio de espectros e graduações, e não por classificações estanques e caídas do céu. Mas, se a prática disso já está nos conduzindo, a consciência e a linguagem envolvidas estão longe de se mostrarem renovadas. Isso entre os mais bem escolarizados. Agora, no âmbito evangélico, não se chegou nem mesmo à discussão sobre “opção sexual” ou “orientação sexual”. Eles ainda se espantam diante do que imaginam que “não é homem e não é mulher”. Olham para tudo como forma de pecado e, pior, achando-se anjos, ele querem que esses pecadores, que estão em cada família, encontrem a cura na igreja. Que a cura venha por meio de Jesus. E se alguém diz que eles não estão de acordo com a ciência, eles rebatem, agora, com a tal técnica de seus psicólogos.

É claro que pastores mal intencionados dirigem tudo isso para fazer política e, junto disso, ampliar a possibilidade das igrejas evangélicas se associarem a uma prática que eles estão loucos para dominar: a das clínicas de psicologia. Assim, tendo TVs nas mãos, dominariam pela fé louca os mais tolos, sendo que os mais escolarizados eles encaminhariam para o discurso de gente com diploma de nível superior: psicólogos evangélicos. Estão se preparando para abocanhar a faixa de classe média que se amplia no Brasil, e que não irá ser católica porque é exatamente a classe média não tradicional. Melhoraram de vida dentro do ambiente evangélico e nele ficarão.

O que nós, os escolarizados e conhecedores de tudo isso, inclusive de como essas coisas ocorreram em outros países, podemos fazer? Qual nossa atitude mais correta. Há duas: em alguns lugares, tratamento de choque, em outros, o diálogo. O tratamento de choque é para com os evangélicos que estão aquém do diálogo. Teremos de lidar com estes na base de fazê-los sentirem-se acanhados, com vergonha de se posicionar. Foi assim que, no passado, tornamos os católicos menos afoitos. Agora, para os que se dispuserem ao diálogo e aceitarem a divisão liberal entre ciência de um lado, comandando práticas necessárias e terrenas, e religião de outro, servindo apenas para dar conforto espiritual, então, o tratamento deve ser de ampliação de bases comuns e até de alianças. Também fizemos isso no passado, com os católicos, e deu certo. Talvez, dê certo com os evangélicos. Não vai ser fácil.

© 2012 Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo, escritor e professor da UFRRJ

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99 Responses to Eles querem “curar gays”, o que faremos?

  1. sandro on 11/04/2012 at 11:11

    se “nossos intelectuais apenas chamarem o povão evangélico de burro,nunca entenderemos que “burrice”não é o único problema deles…

  2. john on 18/04/2012 at 03:01

    Muito bons seus textos.Mudando de asssunto,vi na entrevista que deu no Jô,voce disse que era de Ibitinga,eu morava ali do lado Bariri,conhece?
    Em Ibitinga nao tem uma facul de filosofia?Ia muito quando era pequeno para Ibitinga,minha mae ia comprar bordado.Vejo que voce gosta de compartilhar o que sabe e ajuda aqueles que procuram um caminho dentro da filosofia.

  3. pgjr23 on 18/04/2012 at 10:05

    Não, nasci em São Paulo. Minha mãe mora em Ibitinga. Era isso.

  4. john on 18/04/2012 at 17:03

    Entendido.Aquela entrevista foi muito curta,no sentido de voce nao falar pois toda hora era interrompido.

  5. Andressa on 18/04/2012 at 17:43

    Só uma coisa: Jesus, não é uma muleta para mim, Eu o sirvo porque eu o amo. Da mesma forma que você obedecia seus pais quando você era pequeno. Você os obedecia, porque você os amava. Da mesma forma. Eu obedeço a Jesus, porquê eu O amo muito.
    Quando você parar de comparar Jesus com uma religião e começar a pensar que Ele é o seu Papai Querido, você vai entender melhor.
    Vou orar por você. Te amo em Cristo Jesus!

  6. pgjr23 on 18/04/2012 at 23:20

    Andressa, eu acho que você NÃO sabe o que é amar. Dou-lhe uma chance: diga o que você faz de concreto que mostra o seu amor por Jesus. Conforme sua resposta, o filósofo aqui saberá se você conhece o significado correto das palavras que emprega com tanta certeza.

  7. pgjr23 on 18/04/2012 at 23:23

    Que entrevista? Do Jô? Falei o que queria e o programa do Jô não é para qualquer um, é para as pessoas que à noite vão dormir e vão ver entreteninento leve, não aula. Mas como você não gosta das mulheres do Pânico, não vai gostar de nada na TV. Esqueça, volte para o convento.

  8. Andressa on 22/04/2012 at 13:45

    Querido Paulo, eu não provo o meu amor por Jesus com coisas materiais, mas sim com minhas atitudes. Jesus não nos pede NADA, apenas o nosso coração. Ele nos pede que nós o adoremos em espírito e em verdade.

  9. pgjr23 on 22/04/2012 at 23:53

    Andressa, você não sabe nada. Jesus disse para amarmos a Deus por meio do amor ao próximo. Ou seja, é fazendo bem ao próximo que amamos Deus e Jesus. Ao responder o que respondeu você mostra que não sabe o que fala e de Jesus não entende nada.

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