Festa de criança
Quando eu era criança existia uma festa muito engraçada no Brasil. O pessoal saía nas ruas vestido de tudo que era coisa. Eles iam para um canto “desfilar”. Mas não havia desfile algum. Desfile, mesmo, como no Sete de Setembro, não saía nada. Era só uma folia. Com batuque e dança. Samba, diziam.
Lá pelas tantas, o pessoal mais velho ia para os clubes. A gente nem via como iam e voltavam. Ficávamos mais soltos na rua naqueles dias. Tinha brincadeira de todo tipo e, por isso mesmo, nós não sabíamos muito dos adultos e eles menos ainda de nós. Eram uns dias esquisitos, de liberdade total.
Nós, crianças, ficávamos na rua o dia todo, e nessa época podíamos ir noite adentro também, até depois das oito e mesmo depois das dez! Olha só que maravilha! Cada um com um pacote de coisinhas redondas de papel e outros com uns rolos de papel bem comprido, trazidos por algum tio ou tia. Passava carro e nós jogamos aquilo neles. Depois, apareceram as bisnagas de água. Ah, carro com vidro aberto não tinha perdão: batismo! Não tinha motorista que não ria. Ninguém ficava bravo, gente! Ninguém!
À noite, eram os adultos que faziam isso. Mas não era com água não, era com umas bisnagas de lata, que eles falavam que era o “lança perfume”. Que negócio gostoso aquele! A rua ficava com um cheiro delicioso! Depois, a criançada voltava para casa e dormia o sono dos deuses.
O mais bonito era ver chegar os “carros alegóricos”, puxados por trator ou jipe. Sempre aguardava aquela época para ver as pessoas que andavam o ano todo de roupa até o pescoço, mostrarem as pernas ali, em cima dos tais carros. Vi até uma normalista, que fora substituta de professora na minha classe, de maiô, pulando. O que estaria ela fazendo ali, tão longe de casa! Nossa! Como as pessoas ficavam felizes. E como a gente encontrava pessoas conhecidas ali, em uma cidade diferente da nossa!
Não havia muito isso no interior de São Paulo não! Então, íamos para Santos, no litoral. Ah, era o melhor Carnaval do mundo, ali na avenida diante da praia, onde passava o bonde. Era no Zé Menino, não muito longe da famosa e linda Praia do Gonzaga. Lembro que eu queria demais me vestir de fantasma ou de pingüim, como outros garotos faziam lá. Mas não era fácil fazer uma fantasia, principalmente não estando em casa.
Carnaval era uma época boa. Era uma época de festa. “Festa do povo”, diziam. E eu nem sabia que era uma festa dentro do calendário religioso! Na quarta feira, então, eu ouvia dizer que em alguns lugares do Brasil o Carnaval continuava. Perguntei aos meus pais se esse pessoal que continuava na folia estava cometendo algum pecado. Meus pais disseram que pecado não existia, mas que aquele pessoal, certamente, tinha alguém trabalhando por eles. Perguntei quem, e meu pai disse: amanhã cedo você verá. Éramos nós, ou melhor, meus pais, que na quinta feira mesmo já estavam de volta para o interior, prontos para dar aula. Ah, que bom que eu nem estava na escola!
Paulinho, isso seria no início de 1970, lembrando do início da década anterior. Não seria?
© 2012 Paulo Ghiraldelli Jr, filósofo, escritor e professor da UFRRJ






































Pôxa, Prof Paulo,… que bom saber, que o Sr vinha para minha cidade curtir o carnaval. Mas que época foi esta?
Quando o Sr voltará para cá e nos visitar?
Que tal um lançamento de um futuro livro, pela Realejo Livros! Falar com o Zé Luiz Tahan. Gente boa. Bjs.
Olá, Professor Paulo Ghiraldelli Jr. Amei parte de sua história. Fez-me lembrar de meu tempo de criança, onde acompanhei o crescimento do bairro das Perdizes, na Capital de São Paulo. Era um tempo, assim, como o tempo que você esplanou com as lindas lembranças de sua infância. Quando digo que eu pisava em ruas de terra batida, as pessoas me chamam de velha…kkkk… mas, não faz tanto tempo assim, foi somente no século passado! Parabéns. Você mostrou-nos um pouco de sua alma sensível. Nos mostrou o quanto o simples é perfeito. O quanto éramos mais felizes do que as crianças de hoje que são criadas dentro de quatro paredes. Abraços. Marilena Orsoni (Giraldelli.
Marilena, não penso que éramos mais felizes. Creio que não. Foi diferente, só isso. Foi a nossa história.
Era bom demais essa época paulo, teve um carnaval que eu fui fantasido de índio. Muita brincadeira, muita festa, aquelas serpentinas, sacos e mais sacos de confetes, muito bons. Esse carnaval parece que não existe mais, ou agora apenas em algumas cidades, em alguns nichos.
PROF.GHIRALDELLI……TODOS ESSES DIAS DE FESTA,NOS QUAIS EU PARTICIPEI ATIVAMENTE….PENSEI EM TUDO QUE RELATOU…….LEMBRANÇAS DELICIOSAS DESSA ÉPOCA…..BISNAGA DE ÁGUA,CONFETE MUITO COLORIDO(HOJE NÃO MAIS),SERPENTINAS…LANÇA PERFUME………..NOSSA ,ISSO MARCOU MUITO OS CARNAVAIS DE CLUBES…..OS MOMENTOS MÁGICOS…..E REVIVI ESSE ANO AS MARCHINHAS DE CARNAVAL E BLOCOS DE RUA…..SIMPELMENTE TUDO MÁGICO…PARABÉNS PELO ARTIGO.ABRAÇOS
Paulinho escreve de um jeito tão gostoso que nos dá saudade até do que não vivemos.
Também quando moleque no final dos anos 70 eu curtia o carnaval de São Vicente (baixada santista) e pra garotada não havia igual, era muita diversão e liberdade. Ficava uma renca imensa de garotos frente à Praia do Gonzaguinha só esperando um distraido ou desavisado passar com as janelas abertas pras bisnagas dágua entrarem em ação. O banho era certo, e tinha uns que se irritavam e aceleravam, e uns raros que até saiam do carro querendo perseguir a molecada, mas a maioria aceitava a brincadeira de boa.
É. Parece que as coisas mudaram um pouco de lá pra cá. Creio que seja uma questão de significados. Naquela época divertir-se significava dançar e brincar. Hoje, divertir-se significa transar.
Cada qual com sua época.
Particularmente, eu, sem correr o risco do saudosismo, prefiro a época que você, Paulo, descreveu.
Willpapp! “Transar”? Nossa, esse jargão eu tinha até já esquecido!
Andrei! Verdade, na janela também dava!
Seção nostalgia Paulo? rsrsrsr Aqui em Salvador o carnaval dos clubes as crianças podiam ir nos domingos a tarde, muita fantasia, confetes e serpentinas. O povão ficava nas ruas, mas antes das 10 tudo silenciava e era só por 3 dias este fuzuê. Hoje tudo se profissionalizou, enriqueceu alguns, colocou no point da fama outros e os 7 dias a cidade fica um caos…
Leila Cristina
Leila, ainda bem que tudo mudou. A nostalgia é um perigo quando começa a perdurar.
Nossa! Que lindo!
Lendo este texto consegui desengavetar momentos vividos na minha infância que haviam se perdido em meio à tantas bugigangas juntadas ao longo dos anos com a correria do dia-a-dia. Que gostoso!
Não se trata de momento nostálgico não. Resgatei um período da minha história que pretendo guardar agora com muito mais carinho, para um dia, quem sabe, poder conversar com os meus netos(espero tê-los) e dar boas risadas com eles quando perceber as mudanças dos tempos. “Que bom que evoluímos”.
Um forte abraço!
Ótimo!! Nostalgia saudável!!
Pensamentos no passado mas a consciência no presente.
Não precisamos de máquina do tempo, nossa “bagagem” se encarrega de trazer as felicidades de outrora.
Era bom e ponto.
Professor, a nostalgia perdurará. Não conosco que a experimentamos por breve momento, mas com os “foliões” de hoje, que em breve dirão para os de amanhã o quanto eram bons esse “nosso tempo”.