Os deuses do Brasil

18/11/2011

Paramos de chamar as pessoas de burras. É proibido dizer de um estúpido que ele é estúpido. Na tentativa de sermos polidos, demos um passo a mais e nos tornamos, na verdade, um país de gênios. Mas, agora, já estamos chegando ao limite máximo da condescendência. Pois as pessoas não querem mais admitir erro – nenhuma errro. Assim, nunca estão erradas. Falam abobrinha e, no entanto, “é um ponto de vista”. Caso você aponte o erro para ensinar a pessoa e fazê-la crescer, ela não quer. Ela tem um “ponto de vista” que precisa ser respeitado! – eis aí o berro dos oprimidos do mundo. O aprendizado fica truncado e, assim, nossos jovens vão indo de “ponto de vista” em “ponto de vista” para o poço sagrado … dos pontos de vista.

A democracia é coisa boa. Ter direitos individuais garantidos é ótimo. Mas ter o direito de não ser corrigido não é ter direito algum, é apenas ganhar o tratamento “café com leite”. E isso é uma das coisas mais desrespeitosas no mundo.

Afirmar “pluralidade dos pontos de vista” é lutar contra o “absoluto”. Concordo, claro. Mas a discussão do absoluto é uma discussão filosófica, a discussão do erro e acerto é metodológica. A discussão do absoluto é uma discussão metafísica – tem a ver com o “Deus morreu”, de Nietzsche. O que Nietzsche aponta nessa expressão diz respeito à fase da história da filosofia em que nós, bípedes-sem-penas,  começamos a desconfiar que não precisamos mais falar “de coisa em si” e “coisa para nós”, pois, uma vez que tudo com o que lidamos na ciência é só o “para nós”, o fenomênico, então, que acreditemos só nele. Eis aí o positivismo. Jogamos fora o absoluto. Mas, jogando fora uma parte da polaridade, perdemos também o outro polo, ou seja, diluímos as dicotomias. Ficamos em um mundo em que, do ponto de vista metafísico, não há verdade e mentira. Ora, então, não há nem mais a própria metafísica, mas também o próprio positivismo, inimigo da metafísica, perde sua razão de ser. Trata-se do fim da filosofia. Ou, na terminologia de Nietzsche, estamos diante da constatação de que “Deus está morto”.

E aí saímos nas ruas  berrando “Deus morreu, Deus morreu, agora tudo é permitido”!  Ora, será? É o fim então da vida social?

Erro e acerto são decididos a partir de parâmetros claros, fixados. Pode-se sempre avaliá-los, dado que o parâmetro é posto antecipadamente. Posto por nós, a cada tarefa humana! A questão filosófica e metafísica é diluída pela maioria das correntes filosóficas contemporâneas, a partir de Nietzsche, mas a discussão da avaliação de cada tarefa humana, dentro de parâmetros postos por nós segundo objetivos prévios, não é atingida e arranhada por isso. Nosso sistema axiológico, isto é, nossa tábua de valores é posta socialmente e, na sociedade, vamos articular valores a objetivos e, então, objetivos a notas de performance nas tarefas pedidas para se alcançar esse objetivos. Isso muda segundo nós mesmos a partir do que queremos fazer. Esse tipo de coisa é bem autônomo em relação à filosofia.

Caso eu queira que alguém faça um bolo, dou-lhe uma receita. Ele segue a receita e faz o bolo. O outro segue a receita e faz o bolo melhor. Um acertou. O outro acertou mais! O outro pode ter mais experiência e, então, não apenas colocou os ingredientes na panela e marcou o tempo, mas foi controlando o fogo alto e o fogo baixo, de modo que o bolo, por esse pequeno detalhe, ficou melhor. A performance de melhor resultado é apontada, então, como a correta. A primeira, de mais ou menos certa pode cair para algo que é errado. Pronto, eis aí como é fácil fixar o certo e o errado. Desse modo, daí para diante, há sim quem possa errar. E se a pessoa errar e errar e errar, ora, podemos não chamá-la de “uma anta” por respeito às antas ou por polidez com ela, a pessoa. Mas, a quatro paredes, não vamos deixar de dizer “nossa, como é uma anta, não consegue fazer um bolo com a receita na mão”.

Não entendendo isso, a diferença entre filosofia e discussão de avaliação de tarefas, os jovens e, agora, seu professores, não mais podem se envolver com o ensino, pois não podem ser avaliados e não podem avaliar, dado que não há mais quem erre ou acerte. O Brasil, agora, ficou acima do erro e do acerto. Já nem somos só gênios, somos deuses.

Paulo Ghiraldelli Jr. filósofo, escritor e professor da UFRRJ

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45 Responses to Os deuses do Brasil

  1. Paulo Ferrareze Filho on 18/11/2011 at 14:48

    O que – me parece – atravessa essa merda toda, é a dificuldade de acreditarmos no Diabo. Repudiamos o Diabo porque não conseguimos ver a “divina” possibilidade de construção a partir do NÃO. Dai a dificuldade de absorver a crítica. Essa ideia já gasta da psicanálise, de que recalcamos a crítica por não termos suporte de carregá-la, afastando de nós mesmos nossos aspectos sombrios e nossas diabruras, é o que está no cerne do péssimo tratamento que se dá à crítica.

    Entre os leigos é comum a ignorância sobre o fato de que a crítica é, antes de tudo, uma análise. Porque o senso comum odeia gente em cima do muro, é que querem enquadrar a crítica como sendo SEMPRE um “ser contra” ou um “ser a favor”.

    O senso comum, que desde sempre está domesticado para tentar satisfazer a sua “vontade de trono” (nem que pra isso sejam as figuras da Caras suas majestades) opera sempre na lógica primitiva da guerra. É a guerra justa do senso burro. Eles querem o xeque mate, o mata leão, o delírio do nocaute no MMA que, agora da Globo, vai fazer as crianças rolar nos pátios das escolas querendo esganar o coleguinha.

    O Mario Quintana dizia que não há pior amigo do que aquele que elogia algo que, em nada, é elogiável. Esse descompromisso com o outro, por um medo de rejeição que é nossa, empata qualquer construção.

    Abraço e parabéns pela reflexão xará.

  2. Gustavo Deister on 18/11/2011 at 14:55

    Paulo, como esse parâmetro de certo e errado é avaliado a partir da medição de uma unidade, então, não há polaridade? A dicotomia (mesmo que estejam opostos) parece desaparecer num caso desse, pois o certo e o errado podem oscilar entre si. Dessa forma, a avaliação existente ajuda o indivíduo a oscilar, dentro de uma unidade, do menos (errado) para o mais (certo)?

    Ótimo texto.

    Abraços.

  3. pgjr23 on 18/11/2011 at 14:59

    Gustavo, não sei como algo tão simples, pode causar dúvida. Aliás, o exemplo do bolo eu até pensei em tirar, para não chamar o leitor de bobo. Você complica coisas que são o senso comum do senso comum.

  4. pgjr23 on 18/11/2011 at 15:01

    Nada há de deus ou diabo no meu texto, Paulo. Você está drogado. Dar nota para um bolo. Só isso!

  5. Gustavo Deister on 18/11/2011 at 15:04

    Acredito que tenha entendido teu texto, que é simples. Perguntei dessa forma, pois Nietzsche explica de modo mais complexo, e a ele não posso perguntar se estou pensando – seja complexa ou simplesmente – de forma correta.

    Abraços.

  6. Paulo Ferrareze Filho on 18/11/2011 at 15:04

    Agora entendi porque você disse que tua filosofia é pedestre…Qual a receita pra ter essa overdose de lucidez?

  7. Fabio on 18/11/2011 at 22:24

    Eu cresci e fui criado pela tv, QUE ME ENSINOU VIVER COMO VC CRITICOU ACIMA, não tenho ensino superior; como sofri com essa realidade, porque por mais obvio que fosse, o bem e o mal, das atitudes, ideias, eu não conseguia sobriedade, pra agir, fui entregue a liberdade total; ninguem me corrigi;, via o mal nas coisas boas, o bem nas más;
    [sobrevivi graças a Deus (acredito no DEUS)]
    ferido e num fundo de poço reagi, sai de um esgoto,
    to aqui…
    ps: espero que minha resposta esteja de acordo com o texto, sei lá de repente fui afetado demais e nem interpretar um texto consigo

  8. Gustavo on 18/11/2011 at 22:47

    Caro professor, a mim saltou aos olhos o tom de desabafo de seu texto. Tento imaginar quanta baboseira foi necessária para levá-lo a escrever tudo isso. De qualquer forma, é um serviço (em forma de alerta) que você faz a todos os seus leitores. Penso que o advento da internet acabou contribuindo pra que se agravasse aquela máxima de Protágoras. Hoje todos querem se fazer ouvir, mostrar suas ideias, seus pontos de vista, enfim, todo homem quer ser a medida de todas as coisas, e quando contrariados ou corrigidos preferem sair pela tangente e dizer que não foram compreendidos e que tudo é válido. Como você mesmo disse, todos são gênios, e vale a lei do mínimo esforço. Somado a tudo a isso parece estar uma especie de imediatismo, como se o melhor bolo fosse aquele que se serve fumegando.
    Afinal, qual o problema em estar errado?!
    Mesmo os melhores confeiteiros já fizeram bolos terriveis, mas uma vez conscientes do erro, continuaram “cozinhando” até aprimorarem sua técnica. Mediante as reflexões que seu artigo me levou a ter, chego à conclusão de que o melhor que posso fazer é trabalhar bastante aqui na cozinha de casa, e aprender com meus erros.
    Faço questão de saber quando meus bolos não dão certo, e faço mais questão ainda em não ser uma anta. hehehe

    Inté.

    P.S. adorei seu artigo, e também adoro bolos.

  9. pgjr23 on 18/11/2011 at 23:45

    Fábio, creio que há alguma confusão sim no que fala, mas nada que, ao vivo, eu não pudesse consertar. Até rápido!

  10. pgjr23 on 18/11/2011 at 23:54

    A lucidez é coisa de quem tem luz demais? Um … Lúcifer? Talvez meu daimon seja outro!

  11. pgjr23 on 18/11/2011 at 23:55

    Não, Nietzsche não explica de modo mais complexo de modo algum. É exatamente isso. Aliás, de modo até mais curto que o meu.

  12. Thiago Zucarini on 19/11/2011 at 01:22

    E a educação no Brasil é bem assim mesmo. O professor passa a receita do bolo mas ele vai estar errado se reclamar do aluno colocar fermento demais ou deixar o bolo com um gosto horrível, porque afinal todos os bolos tem que ser aprovados =)

  13. pgjr23 on 19/11/2011 at 08:26

    Thiago Zucarini, os outros Thiagos devem ficar preocupadíssimos quando eu respondo para você sem colocar o sobrenome!

  14. Thomas Lee on 19/11/2011 at 08:30

    Dar nota para um bolo segundo uma receita… só isso? Sendo a receita o critério usado para saber qual o bolo melhor. Tudo bem! Sendo assim você até parece que tem razão. Na verdade nosso mundo e nossas vidas não são divididas entre verdades e mentiras e sim somente de mentiras. Nosso mundo é uma grande mentira na qual resolvemos acreditar. ou não!

  15. Thomas Lee on 19/11/2011 at 08:37

    - Chamar uma pessoa de burra acrescenta o que no que?
    - Chamar uma pessoa de burra é o mesmo que chamar a si de inteligente?

  16. Fabiano on 19/11/2011 at 08:44

    Prof. Paulo,
    Como sempre, escrevendo textos que gostaríamos de escrever, provocando como gostaríamos de provocar!
    Hoje, além de não podermos dizer ao burro que ele é burro (e você já escreveu outros textos brilhantes a este respeito), chegamos ao ponto de não ter o direito de nos calarmos diante de um tipo especial de burro: o imbecil religioso! O religioso quer porque quer que tenhamos a obrigação de elogiá-lo e respeitá-lo e venerá-lo por qualquer asneira que ele diga. O golpe mais brilhante dessas igrejolas por aí, me parece, é exatamente esse: convencem seus burrinhos de que ele devem se achar não apenas imunes a críticas, mas sobretudo merecedores de elogios públicos.
    Obrigado por seu texto!

  17. sandro on 19/11/2011 at 11:25

    Prof., tdo bem? Sou da área de Letras e gostaria de ler algo sobre a diferença entre Logos e ratio. O que devo ler? Li o texto “o conceito de paixão”, de Gérard Lebrun, no qual o autor afirma que Logos ´”não pode ser traduzido com fidelidade pela palavra latina ratio”, sem, no entanto, explicitar. (LEBRUN, G. O conceito de paixão. In: NOVAES, Adauto et al. Os sentidos da paixão. São Paulo: cia das letras, 2009, p. 20.).
    Grato!

  18. pgjr23 on 19/11/2011 at 13:01

    Não pode, mas como somos latinos, traduzimos e pronto. Ele, é claro, não tinha uma outra alternativa. Não poderia mesmo.

  19. pgjr23 on 19/11/2011 at 13:02

    Thomas Lee, ter essa preocupação acrescenta o que? Eu sei. Será que você sabe? Examine-se! [quem ler este comentário ao escrito de Lee não esqueça de ler também o comentário dele anterior, sobre chamar uma pessoa de burro, e também a resposta. Eu deixo esses comentários aqui para não tirar a chance de alguns leitores, que passam aqui para se divertir].

  20. pgjr23 on 19/11/2011 at 13:03

    Thomas Lee, nunca exerça nenhuma profissão, tá?

  21. Bruno Marcondes on 19/11/2011 at 13:58

    Paulo, em que medida se pode entender o niilismo, a partir do fim da metafísica e da tábua de valores, posta socialmente?

  22. pgjr23 on 19/11/2011 at 15:14

    Bruno, que perguntona, eu tenho escrito aqui e ali sobre isso, nos meus 4 ou 5 últimos livros tenho bicado o tema.

  23. Lívia Azzi on 19/11/2011 at 21:54

    Adoro acompanhar você, Paulo! Primeiro para comer os seus bolos, depois para aprender a fazê-los desse jeito gostoso que você faz.

    :-)

  24. pgjr23 on 19/11/2011 at 22:53

    Ha ha ha!

  25. Guilherme Gouvêa on 20/11/2011 at 10:18

    Muito bom. O senso comum trata a célebre frase do filósofo (“Deus está morto”) como uma ode ao ateísmo, quando na verdade essa interpretação não corresponde fielmente ao contexto do raciocínio de seu autor. Ainda bem que (ainda) há gente, como você, para mostrar isso…

  26. marcos oliveira on 20/11/2011 at 12:16

    Hoje é muito mais fácil ir ao MCDONALDS que fazer o bolo, prefiro eu fazer o bolo mesmo que ele não saia bom da primeira vez, posso tentar mais uma vez até ficar bom. A questão estar que não aceitamos mais como humanos imperfeitos e nem a sociedade se ver como construída por humanos imperfeitos que somos. Hoje trocamos a oportunidade de buscar as coisas por facilidades o Pai dos burros não é mais os dicionários é sim o GOOGLE. Todos se ver como monte de ideias que não são menos como humanos que são.

  27. pgjr23 on 20/11/2011 at 13:27

    O google é o pai dos inteligentes. Só inteligentes sabem consultá-lo criticamente.

  28. Guilherme Gouvêa on 20/11/2011 at 14:34

    Estive pensando: será que essa gente que dirige o sistema educacional oficial tem um quê de Husserliana?

  29. Thomas Lee on 21/11/2011 at 15:27

    Bom primeiro eu preciso entender como se exerce nenhuma profissão para depois seguir teu conselho e nunca fazer isso.
    Ah Paulo! como você adora esses marcos oliveira da vida. Eles te entendem tão bem.

  30. Rodrigo Tomé on 21/11/2011 at 15:31

    Tem um aforismo do Isaac Asimov que tem tudo a ver com esse artigo:

    “O anti-intelectualismo tem sido uma linha contínua a serpentear através de nossa vida política e cultural, alimentada pela falsa noção de que democracia significa que ‘minha ignorância é tão boa quanto o seu conhecimento’.” — Isaac Asimov*

    *Entre outros tantos títulos, Isaac Asimov é autor do clássico “I, Robot” (“Eu, Robô”), de 1950, que virou filme homônimo em 2004.

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