Jesus e o romance moderno
Após seu batismo, Jesus foi levado ao deserto pelo Espírito e lá foi tentado pelo Demônio. Essa história é conhecida de todos. Para os filósofos, ela mostra uma das facetas da subjetivação do mundo, processo desenvolvido, em grande parte, pelo cristianismo. No caso, trata-se de como a própria literatura cristã forneceu o modelo para o gênero literário moderno par excellence: o romance.
Diferentemente dos gêneros literários pré-modernos, o romance é a narrativa em que o enredo central nada pode mostrar senão os dramas interiores do herói principal. A natureza e a sociedade, tomadas objetiva e descritivamente, podem ocupar papéis próprios. Os acontecimentos históricos também. Mas, no centro das atenções, o diálogo do herói consigo mesmo – explícito ou implícito – ocupa o plano de destaque. É isso que é o romance. Aliás, exatamente essa sua característica é a razão de seu sucesso entre o público moderno, que o consome na sua forma popular, o folhetim de jornal ou de TV – as telenovelas.
O público moderno pode não conseguir desenvolver plenamente sua subjetividade. Pode, inclusive, ter uma vida entendiante, com vivências parcas e pobres. Mas, há remédio para isso. Chegando à noite em casa, todos nós sentimos que temos um “interior” a ser preeenchido senão pelo nosso próprio espetáculo, então que seja pelo espetáculo dos personagens das novelas. Eles dialogam consigo mesmo. Procuram mostrar suas dúvidas, decisões, martírios e maquinações – culpas. Eis aí aquilo que um dos primeiros romances, o Novo Testamento, ensinou a todos os outros: focalizar os dramas interiores.
Um personagem como Aquiles, ao ter de voltar para uma batalha que ele achava injusta, o faz por causa da morte de seu melhor amigo. Toma essa decisão sem dramas. Aquiles é uma máquina de guerra. Imponente, heróico, porém, como todos na Ilíada e na Odisséia (inclusive Ulisses), ele é nada além de um personagem com uma subjetividade rasa. Em contrapartida, um personagem como Jesus, protótipo do herói do romance moderno, não tem outra atividade senão revelar seus dramas interiores. É isso, em parte, que faz da Bíblia um livro popular: ela sempre esteve, ao menos na versão que contém o Novo Testamento, favorecendo a subjetivação do mundo que o próprio cristianismo alavancou. O Novo Testamento nunca deixa o leitor sem a participação em uma situação subjetiva, onde tudo que há para ser visto e analisado nada é senão o mundo interior desse herói, Jesus, jogado ao Destino. Nada há de mais distante do episódio que conta a volta de Aquiles à guerra de Tróia que a ida de Jesus ao deserto.
Aquiles volta à guerra, o seu inferno, para vingar a morte do amigo. Trata-se de cumprir um dever de consciência, em favor da honra e da glória, mas sem qualquer grande questionamento. Homero gasta poucas palavras na decisão de Aquiles. Jesus vai ao deserto para encontrar o rei do inferno, ou seja, o demônio. Mas, como sabemos bem, o demônio nada é senão Jesus mesmo, sua consciência que aponta para todos os êxitos que ele teria na vida se não se decidisse por ser quem foi, o criador de uma nova doutrina. A honra e glória já não se impõem, elas competem agora com a vocação.
Filho de um carpinteiro bem sucedido, bonito, forte e bem falante, Jesus poderia ter mulheres, uma certa riqueza e bastante prestígio. Poderia, inclusive, dedicar-se à pregação nas Sinagogas, como tantos outros, sem deixar a família e a profissão. A vida inicial de Jesus tem tudo para seguir de êxito em êxito. Aí está o seu drama interior: deixar tudo isso para seguir um outro tipo de vocação, a de artista criador. Não um simples pregador a mais. Não um carpinteiro de sucesso que, nas horas vagas, se divertiria falando nas Sinagogas e podendo conquistar as moças. Jesus deseja outra coisa para si mesmo. Quer o difícil e perigoso caminho da criação de uma nova doutrina e, quiçá, uma nova cultura. Essa é a luta de Jesus consigo mesmo no deserto. Jesus é o primeiro herói de romance na medida em que tem sua história contada em forma de drama interior, pois é assim mesmo sua história. Nada mais moderno que o romance da vida de Jesus, como aparece no Novo Testamento. Esse foi o primeiro e original romance.
Toda a vida de Jesus é vivida por fatos objetivos que desencadeiam vários episódios que só são interessantes quando expostos pelo seus lado subjetivo. Assim é quando Jesus pede para seu Pai celestial “afastar o cálice”, ou quando Jesus, ele próprio, ensina os apóstolos uma oração que permite falar ao próprio Pai e, finalmente, no episódio em que Jesus, já na Cruz, clama pelo Pai, no célebre “Pai, por que me abandonaste?” Ora, eis aí o verdadeiro calvário. Não o do traçado objetivo, chegando ao monte onde foi crucificado, mas o da exposição das dúvidas de um eu complexo, com sérias inquietações e temores. Após o Batismo, ou seja, um rito de iniciação para a vida da maioridade plena, Jesus teria de escolher o que fazer na vida. Caso ficasse com sua família, teria êxito. Caso abandonasse a família, traria sofrimento para todos, e talvez jamais fosse entendido por qualquer de seus entes mais queridos. Afinal, que família gostaria de ver o filho trocar uma vida com êxitos em negócios e mulheres para se por como pregador de uma doutrina ainda sem nenhum seguidor?
O tempo no deserto é o tempo da luta do eu com o self (o si mesmo). É o tempo da decisão. É o tempo em que Jesus faz aquilo que fazemos quando nos enfrentamos. Não à toa dizemos: temos de decidir e, para tal, temos de enfrentar os nossos “demônios interiores”. Jesus, no deserto, enfrentando seu demônio interior, mostra ao leitor da Bíblia que ele é um bom personagem, alguém realmente capaz de ser o modelo para outros personagens queridos, os personagens do romance, o efetivo gênero literário da modernidade.
Jesus como personagem anuncia todos os personagens dos romances modernos, pois anuncia também o próprio homem moderno.
2011 Paulo Ghiraldelli Jr, filósofo, escritor e professor da UFRRJ






































Filósofo não virou mercadoria. Cuidado com jargão sem sentido. Subjetividade espessa, que tem drama, que é preenchida por dramas, intenções, culpas etc.
A visão do super homem é sempre envolvida pela nossa infância importada do totemismo americano! A subjetividade de que Nietzsche trata nada tem a ver com essa imagem de super homem. Por que as pessoas tomam sempre os seus conceitos próprios e visões de mundo para generalizar? Vai ver deve ser imanente essa ideia de super homem, não é mesmo?
Que “totemismo americano”? Que besteira é essa?
Tá certo já raservei um dinheiro, daqui uns 8 dias vou comprar o seu livro. Eu acho que vai ser uma boa maneira de começar a ver o que realmente é a filosofia.