Hélio Bicudo e Marilena Chauí no pós-Tiririca
Marilena Chauí, do PT, é hoje a pior cabo eleitoral de Dilma, enquanto que Hélio Bicudo, ex-petista, é o melhor cabo eleitoral de Serra.
Bicudo vota em Serra, agora no segundo turno, pois sua preocupação é com o modo como a política vem se fazendo dentro do PT, a partir do caciquismo e das campanhas financiadas com dinheiro de origem pouco legítima. O voto de Bicudo não é um voto positivo em Serra. Serra é, para ele, nada além de um conservador de pouca visão. Trata-se de um voto de protesto contra os descaminhos da esquerda, que ele ajudou – em muito – a construir.
Bicudo funciona como um bom cabo eleitoral de Serra porque o que ele ataca no PT é o que realmente uma boa parte dos escolarizados de esquerda, formadores de opinião, reconhece como verdadeiro: a democracia interna do PT acabou faz tempo e talvez seja melhor não ter partido algum de esquerda do que ter uma caricatura dele. Antes nenhuma esquerda que uma que pesa contra qualquer projeto de esquerda. Ele arrasta para Serra aqueles que, com raiva dessa traição do PT, não teriam votado em Plínio, pois o projeto socialista deste lembra em muito o de uma esquerda carcomida, com propostas pouco viáveis dentro do arcabouço democrático.
Marilena Chauí vota em Dilma. Fez isso no primeiro turno e repete agora no segundo. Mas seus argumentos ficam aquém da filósofa que é. Primeiro, meteu os pés pelas mãos vendo fantasmas onde eles não existiam. Falou que Serra seria uma ameaça à democracia. Isso não é verdade, pois o jogo democrático no Brasil está consolidado e nem Serra e nem Dilma estão batendo em portas de quartéis ou querendo qualquer coisa que não seja a continuidade das instituições republicanas de modo legítimo. Serra e Dilma representam projetos políticos que tiveram êxito na democracia e não querem dela sair.
Em segundo lugar, mais recentemente, Chauí disse que o debate sobre temas religiosos, trazido pelo PSDB para a campanha, podia ser considerado “obsceno”. O “santinho de campanha” ligando Jesus a Serra seria um “desrespeito ao sagrado”. Também aí Chauí erra. Pode ser de muito mal gosto de Serra (vindo dele, não é de se estranhar!) distribuir santinhos com Jesus, mas isso não é “obsceno” e, no nosso mundo, no mundo que Chauí insiste que deve ser o da política laica, a idéia de sagrado não proíbe que se chame Jesus para qualquer coisa que se ache correto numa disputa. Sabe-se bem que se o Brasil entrar em uma guerra as nossas tropas não irão para a luta sem antes receber a benção de um padre ou coisa equivalente. Todos nós diariamente evocamos nossos santos para vir para o nosso lado – num empreendimento pessoal ou num jogo de futebol – mesmo quando não estamos lá com grande razão. Além do mais, José Sarney, que está na frente partidária que apóia a candidata de Chauí, foi quem escreveu no dinheiro brasileiro “Deus seja louvado”. Não me lembro de Marilena escrevendo ou bradando contra isso.
Não escrevo isso para ferir os fãs de Marilena Chauí ou para deixar incomodado os que acreditam que só agora Bicudo está do lado correto. Escrevo para lembrar que há intelectuais que se portam como intelectuais, como é o caso de Hélio Bicudo, mesmo ao preço de ficar olhando para a árvore sem ver a floresta, enquanto que há outros, como Chauí, que confundem árvores e florestas, ainda que possam, como sempre, justificar seu tropeço por meio da velha desculpa de que fizeram o que fizeram em favor de um “ideal maior”.
Ser intelectual em época de eleição não é fácil. Descrevê-los assim, como eu tentei, também não. Aliás, é de uma grande ousadia, eu reconheço; e certamente gerará muita incompreensão. Mas, no meu caso, o compromisso é, talvez egoisticamente, antes com a filosofia que com qualquer outra coisa.
Já escrevi aqui e continuo endossando a idéia de que filosofia é filosofia e política é política. Mas, nada me impede de tentar nadar na política com nadadeiras da filosofia. Então, assim, fazendo isso, eu tenderia a dizer que Chauí vota certo com argumentos errados enquanto Bicudo vota errado com argumentos certos. Ou então: A filósofa sacrifica a razão para não perder a política de seu coração enquanto que o jurista magoa a política do coração para não abandonar a razão.
Dia 31 de outubro, você também sacrificará algo ou alguém para fazer a sua escolha, caso vote com alguma reflexão. Caso vote sem qualquer reflexão, terá de voltar ao primeiro turno, pois Tiririca não concorre no segundo.
© 2010 Paulo Ghiraldelli Jr. filósofo, escritor e professor da UFRRJ
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O petista se tornou um cara que mesmo quando pode ganhar sem fazer algo errado ele faz algo errado para ganhar.
Devemos ter uma visão global do modelo político barsileiro.O que dizer sobre a aliança Sarney/Lula que já foi Sarney/FHC e seria Sarney/Serra com certeza, pois, o jogo é claro, o Sarney faz chantagem pra manter sua estrutura.
Vamos pensar maior, pensar no melhor para o brasil e não em questões regionalistas menores…Quando a educação Pública, em todos os níveis, teve avanços? Quando ela foi mais sucateada? Quando foi construido mais Escolas técnicas? Elas são importantes para o desenvolvimento? Quando elas foram desprezadas? Qual País alcançou desenvolvimento Sucateando Univesidades Públicas e fazendo surgir em cada esquina uma particular? É preciso ser Sociólogo Pra responder? Só FHC, os intelectuais do PSDB e meia dúzia que se acham elite não sabem.
Por que o brasileiro teima em não entender que sem alianças o presidente não consegue governar? Qual a dificuldade de entender algo tão simples e tão visível na democracia?
Pergunta: Entre decidir magoar a política do coração para não abandonar a razão – votando então no Serra – não existiria a posição do “fazer valer o direito a que o voto seja secreto” e/ou “votar em branco”?!
O ato de votar a favor do Serra é dose!
Professor Paulo, obrigado por suas reflexões e interatividade com os leitores, enfim, obrigada pela disponibilidade! Quanto ao texto gostaria de refletir nas seguintes questões: I – Será que todos os eleitores de Tiririca (quase um milhão e meio!) votaram sem pensar? II – O jogo eleitoreiro (máquina do estado, midia, etc..) trouxe esses dois candidatos para o 2º turno, quando tínhamos apenas uma proposta (já falida na proposição) de mudança estrutural – a do Plínio. Quais as diferenças entre Serra e Dilma no plano governamental? Acredito ser só o gênero. Quanto à filosofia e a política, não será o pensamento filosófico o fundamento de todas as ações humanas? Acho justamente que falta ao debate político a base filosófica. Nos países de primeiro mundo ( França, Inglaterra…) é comum a presença de filósofos no campo político. No Brasil, hoje a área político-partidária é campo de brincadeiras, de ganhos, de vaidades…por isso a resposta popular ( o povo é sábio) aos mandos e desmandos dos nossos políticos – é a velha forma de “sacanear” do povo brasileiro (Macunaína). Nós, do povo, não fomos irresponsáveis, apenas demos ao congresso atual, a resposta merecida! E domingo, triste será a decisão maior – vemos nas ruas apenas os militantes pagos. Não existe mobilização popular para nenhum dos candidatos! Acho que se existisse uma forma de divulgar o voto nulo às massas a resposta seria nova eleição com propostas que vão além da PRIVATIZAÇÃO que é o único assunto dos candidatos. O debate está fraco, reflete o momento da sociedade brasileira afundada no ideário neoliberal de políticas focalizadas e sem utopia. Para existir esquerda e direita é necessário o poder e a utopia. Hoje, não temos mais utopia. Lidamos com o que temos. Vamos às urnas com lágrimas nos olhos, chorando por este país maravilhoso estar sem perspectivas de avanços. A juventude precisa acordar e balançar. Precisar sair do platonismo que infelizmente nós deixamos para eles. Precisamos de lideranças sérias, comprometidas, sonhadores…em nossos devaneios visualizamos Monteiro Lobato, Ulisses Guimarães, Darci Ribeiro, Tancredo Neves e tantos outros que me fogem à memória. Homens que num determinado tempo histórico transformaram seus sonhos na realidade do povo brasileiro. Nossos candidatos ainda não mostraram seus sonhos, se é que os teem – pois os que eles demonstram e fazem, Haieck já sonhou há muito tempo atrás…Soube até que Tony B. esteve na semana passada no Brasil ministrando palestra com presença de Marina e de outros membros da “esquerda”…é a social democracia!
Independente das regras eleitorais quanto ao voto nulo, seria mais interessante se o Bicudo, através da influência dele, formasse uma forte campanha pelo voto nulo e realizasse seu protesto.
Bicudo é um homem. Só isso. Ele virá aqui na UFRRJ dar palestra. Com mais de 80 anos, ele virá sozinho. Chamou, ele vem. Ele não tem uma claque ou um grupo de secretários, como outros possuem. Ele nunca se preocupou em criar esse tipo de coisa.
A “juventude” é um mito – e tolo. E as eleições são o que são. Talvez seja melhor ter candidatos que não são donos do mundo. Melhor para a democracia.
No Brasil as pessoas não podem ser conservadoras. Aqui, todo mundo tem de ser “progressistas”. Ou seja, o Tea Party aqui se reune escondido, ainda que todos saibam que é na cozinha do Serra? Os conservadores devem votar no Serra, qual o problema. Agora, no caso do Bicudo, ele está fazendo campanha contra o populismo, o mandonismo, o caciquismo DO PT, para ele, aí há o perigo. Ele tem lá suas razões. Caso o candidato não fosse o Serra e caso o opositor do PT não fosse o PSDB, eu até pensaria seriamente na proposta do Bicudo.
Paulo, acho que você não alcançou minha crítica…fanático pelo PT?rsrs. Estou falando de alternativas a esta dicotomia…e Bicudo…e você fazendo bicão!!!
Você tomou “fanático pelo PT” para você? Vai mal heim?
Chauí comporta-se como a mãe condescendeste, que passa mão na cabeça do filho, mesmo ante inúmeras evidências de que algo está errado.
A culpa não é do filho.É dos outros, dos amigos, das más companhias.Os professores estão implicando com o garoto.
Inconscientemente talvez, reconhecer os erros do filho, para então poder corrigí-los, seja admitir que falhou como mãe.
Já bicudo é o pai disciplinador. Chama a responsabilidade para o filho e para si, por mais que lhe doa no coração.
Entende, conforme noção bastante difundida, que é melhor ele castigá-lo a deixar que a sociedade o faça.
Com lágrimas nos olhos, então castiga o menino.Sabe que é para o bem dele próprio.
Bicudo falou mais, outro dia, e também exagerou. Mas Chauí, no caso, parece que está para além de mãe, ela está se tornando madrasta de si mesma. Não é mais uma apoiadora do PT, está se tornando prisioneira do PT.
Professor,
Para mim, o mais triste, é que o Lula conseguiu quase que se tornar uma religião. Dogmática, pura, poderosa. Isso me entristece, e ver que um senhor fundador desse partido, levanta questões de suma importância, como a perpetuação do poder do Lula, embora eu cá com meus botões ache que ele irá pleitear uma cadeira na ONU, mas concordo com o Sr. Bicudo, e faço votos que as pessoas leiam, discutam, e se conscientizem….não é para ser uma unanimidade, mas sim, temos o dever de questionar, e buscar melhorar. Em minha opinião, o Serra não seria o melhor candidato, nem tampouco Marina, aliás, acho que nunca vi uma eleição com tantos candidatos ruins (poucas propostas e planos de governo discutidas), mas enfim, concordo com o Sr. Helio, e vou votar com a razão.
Não vejo o Lula assim. Vejo o Lula como quem fez um bom governo. O que você queria, que nossa população cuspisse em quem fez um bom governo? Não! Felizmente não. Acho que você está falando isso porque não está considerando a população e sim o militante petista ou gente mais ligada ao lulismo. Aí sim, é a imbecilidade completa. Mas a maioria da população está aplaudindo sem fanatismo. Você vai votar errado. Paciência. Felizmente não vai ganhar.
Paulo, gosto muito dos seus textos e quase sempre concordo com eles, mas nesse aqui há algo que me incomodou e, talvez, isso seja parte da incompreensão a qual você já previu. Mas vamos lá: Entendo que a Chauí muitas vezes emburrece em nome de uma militância cega pelo PT a ponto de não se posicionar em casos absurdos como o do mensalão, por exemplo. Mas concordei quando ela disse que usar religião ou, até mesmo, a imagem de Jesus Cristo numa eleição é obsceno. É obsceno, sim. Usar de símbolos religiosos ou tocar na ferida dogmática cristã para depois assoprar é repulsivo. Somos um país cristão, fato, e é natural que isso se manifeste de algumas formas, como, por exemplo, o “Deus seja louvado” na nota de dinheiro, coisa que acontece em muitos países. Ou até mesmo o Lula sendo arrebatado por uma espécie de “síndrome messiânica” ao dizer no nordeste que “sente que foi PREDESTINADO para governar esse país, mas daí a usar a religião para camuflar um discurso conservador podre (coisa que vimos na Marcha da Família com Deus Pela Liberdade) me parece um tanto obsceno. Nisso, tive de concordar com a Chauí.
Thaís, você está rendondamente enganada. Quando falamos de políticos, podemos nos dar ao luxo de relaxar. Mas quando falamos de uma filósofa, é bom prestar atenção nos conceitos. E Marilena está errada conceitualmente. Preste atenção no meu texto, leia com cuidado, e perceberá.
Paulo,
Concordo com você em relação à Chauí.
Ela parecia mais uma louca desvairada na televisão, deprezando a sobriedade e a necessária precisão nas definições que se esperam dela.
Mas discordo quando você diz que Bicudo “vota errado com argumentos certos”.
Os conceitos também são importantes para um jurista. Talvez até mais.
Quando o Hélio vai na TV para dizer que democracia é “alternância de poder” e que devemos evitar a instauração de um “sistema mexicano” no pais, ele comete os mesmos erros de Chauí.
O primeiro em relação à definição de democracia. Democracia não é mera alternância de poder. Se o fosse, as Constituições democráticas do Ocidente preveriam cláusulas impeditivas de que o poder da situação continuasse. Apenas veda-se a reeleição da mesma pessoa para um terceiro mandato consecutivo.
Mas o meu argumento não é apenas jurídico. Democracia é governo do povo – seja lá o que “povo” signifique. Um governo que reiteradamente é eleito pelo seu povo poderia ser taxado de anti-democrático? Respondo: acho que não.
O segundo erro está na sempre tentativa frustrada de buscar categorias gerais na história. Como se pudéssemos extrair do que aconteceu historicamente no México uma solução para o nosso caso.
Buscar “lições da história” é só um pouco mais vantajoso do que ler vísceras de animais.
Marcelo, Chauí falava nos anos 80 com um estranho sorriso no canto da boca, como se o que ela dizia fosse uma revelação da “sacanagem da burguesia”. Aquilo ja´era decadente na época. Agora, virou isso que você viu, um descuido completo para com conceitos básicos. Ela, mais que o Serra, acreditou na mentira que ela mesma criou.
Particularmente gostei do texto, que parecia partidário mas depois mostrou ser bastante razoável. Mas as respostas aos comentários dos leitores me parecem desproporcionalemte agressivas (não li todas, mas tem uma que chama o cara de burro…). Chego a estranhar.
Não sou partidário de bobagens.
Paulo, o sr. chama seus leitores de burro. É a primeira vez que vejo um filósofo se utilizar destes termos. Por quê?
Fique tranquilo, é a primeira vez que escutou isso porque talvez seja uma pessoa que nunca leu filosofia. Caso tivesse lido, verá que os filósofos não economizam adjetivos. Agora, quanto a você, vou poupá-lo. Os leitores julgarão melhor.