O professor que odeia o livro
É considerado habilidoso aquele soldado que carrega rapidamente sua arma e em fração de segundos tem o inimigo sob mira certeira. Também é muito apto o trabalhador fabril que ajusta uma peça na velocidade correta, então deslocada na sua direção por uma esteira na linha de montagem. Velocidade e destreza, nesses casos, são essenciais. Essa velocidade e essa destreza, uma vez no campo da leitura, talvez sejam exigidas no e-mail e no twitter. Todavia, valem pouco para os intelectuais que, enfim, se alimentam antes de tudo do livro.
O livro é o campo do intelectual. Não é o campo do estudante que, enfim, é transformado pelos professores, quando muito, no soldado, no trabalhador fabril e no leitor de twitter. O estudante é tirado, pelo professor, da estrada que poderia transformá-lo em um intelectual ou, ao menos, em uma pessoa capaz de autonomia de julgamento. Vítima de pequenos textos em forma de cópia Xerox, o professor tornou-se alguém que perpetua a cultura da pressa e do acúmulo, tornando seu aluno igual a ele próprio, antes um meio leitor que um leitor.
Esse professor é um inapto. Mas o pior é que ele é um produtor de inaptos. Há muito ele caiu no conto de uma das vias da modernidade, a que confundiu rapidez com objetividade. No campo de batalha, o soldado que arma seu fuzil rapidamente e de modo mais veloz ainda tem o inimigo sob mira, recebe o nome de um “atirador objetivo”. De modo menos dramático é o caso do “jogador objetivo”, que finaliza bem e reduz o jogo todo a algo muito chato caso não exista o gol. Essa noção de objetividade desliza erradamente para a atividade do leitor e, então, qualifica o que é o “leitor objetivo”. Este, desse modo, é o que “vai direto ao ponto” no texto e não sucumbe às diversas possibilidades interpretativas. O que deveria ser uma virtude do bom leitor, que é justamente a capacidade de sucumbir às diversas possibilidades interpretativas, indo e vindo no texto, parando para repensar e fazer conexões próprias, agora é o comportamento condenado.
Nessa cultura que a filósofa Olgária Matos chama de o “vamos direto ao ponto”, as palavras subjetivo e objetivo perdem sua melhor significação. Subjetivo não é mais próximo de reflexivo e, sim, de confuso e lerdo. Objetivo continua a ser quase sinônimo de verdadeiro, mas não pela sua qualidade de independência e, sim, pela sua simplicidade e rapidez. Essa confusão de conceitos que criou o leitor de nossos tempos, o leitor não intelectual, é comemorada então pela universidade que abriga o professor inapto.
Esse professor começou sua carreira sem perceber que iria se tornar o que se tornou. Ele não se matriculou em um curso para ser imbecil, é claro. Mas ele não foi suficientemente esperto para escapar da tarefa que ganhou nos primeiros dias de aula, talvez bem antes da universidade, tarefa esta que ele, depois, passou a repetir com seus alunos candidatos a aleijões mentais. Foi lhe dado, logo no início de sua vida escolar, antes a tarefa de resumir textos e colocar “as idéias principais” que a tarefa de compreender o texto e expandi-lo por meio da imaginação, criação e busca de erudição. Assim, de resumo em resumo, no afã da atividade de tornar tudo menor, mais rápido e curto, ele acabou encurtando, verdadeiramente, sua inteligência. Ficou curto mentalmente. Nada lê para criar. Tudo lê para fichar. Até seu mestrado e doutorado foi feito assim, por meio de “fichamentos”. Ele até chegou a ler um manual de metodologia científica que aconselhava o fichamento! Ele se tornou, assim, uma pessoa limitada se sem a menor idéia do que é ser um leitor. Ganhou um “Dr” na frente do nome, que o legitimou nessa atividade que ele acredita que se encaixa na universidade perfeitamente. Exibe esse seu hábito de pegar atalhos, que o torna um símio, e é assim que se comporta: exibe seu método de “fichamento”, resumo, e leitura do crime do Xerox como o macaco exibe o pênis quando vê a fêmea humana.
Paro por aqui, pois já ultrapassei o tanto de linhas que os alunos desse professor conseguem ler. Eu disse os alunos, ele mesmo, o dito professor, parou bem antes, no segundo parágrafo. Esse tipo de professor se tornou um ejaculador precoce. Ele não leva adiante nada que ultrapasse uma lauda, e mesmo assim, às vezes não termina nem mesmo uma lauda uma vez que, precisando de dicionário, não o apanha na estante e tem preguiça de consultar o da Internet, aberta na frente dele.
© 2010 Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo, escritor e professor da UFRRJ
Sobre leitura e sobre esse tipo de adorador do resumo, veja o vídeo aqui.






































Paulo,
As vezes acho que isso acontece porque o que está em jogo, para muitas pessoas, não é a formação intelectual necessariamente, mas o titulo, o diploma. Tenho para mim que muitos desses professores que estão aí, tanto no Ensino Médio quanto nas Faculdades, na verdade, estão porque não acharam outra coisa para fazer. Hora, a luta da maioria dos brasileiros é conseguir um emprego. Assim, o ministro da educação quer ver o “povo” formado, então vamos abrir faculdades. Então um espertinho ver tudo isso e diz: Puxa! vou ser professor universitário, afinal, tem faculdade a “rodo” no Brasil afora. Daí ele faz uma graduação nas “coxas”, faz uma “pós” em metodologia do Ensino Superior, e como ele já conhece alguém lá da faculdade, ele consegue uma vaguinha (pelo menos nas particulares, funciona mais ou menos assim).
No Ensino Médio, quase a mesma coisa. O cara não conseguiu por algum motivo ser aquilo que o pai dele tanto sonhava (Advogado, engenheiro, médico), daí ele vai cair onde? Nas escolas.
Conheço muitos “professores” que se encaixa no perfil desse se texto. Adoram xerox (não tem uma dúzia de livros), gostam de fazer aquelas citações, frases de efeito, geralmente frases que estão ou na “orelha” do livro, quando muito na introdução.
Ser professor hoje é uma válvula de escape, se o sujeito não arrumou outra coisa para fazer, ele inventa de ser professor, e aí, o resultado é isso mesmo, repetição, não produz nada.
Abraços!
Deve fazer parte da equipe que implantou o apostilamento na Secretaria da Educação do Estado de São Paulo, sob o camando de Paulo Renato Sousa, que por ser economista, implantou a economicidade, um tal de apostilamento que beira o fichamento.
Tanto faz se ele é professor ou não, não muda muito. São todos pseudo leitores.
huahahuhuhahuhahauhuahuahaua. Muito bom mesmo!!!
Deu prazer ler esse texto. Muito esclarecedor
O problema é que essa crítica ao que se faz em São Paulo pode ser aplicada às idéias do que se faz no Governo Federal. Em termos de pedagogia (e não de educação), o grupo do Haddad difere muito pouco do grupo do Serra.
cada vez que leio os seus texto minhas angustias ou pensamentos angustiados desvanescem… Um texto excelente e muito importante! Adorei! Vc tem toda razão em cada linha! Vou divulgar no meu blog e em ‘minha’ universidade. Merece reconhecimento e boas discussões… Abçs
Claudia, acho que eu escrevo para ver se passa a angústia.
Veja mestre o exemplo dos animais que nos ajudam a sair de nossas deficiências… Eu falo da Equoterapia, que antes treina exatamente os cavalos para serem professores ( sem qualquer sentido pejorativo, digo de passagem). Seu excelente texto avisa para sermos pensadores antes de entrarmos na Faculdade, e então, poderíamos buscar alguma comissão de ética do pensamento que treinasse com a mesma eficiência natural com que os cavalos naturalmente inteligentes ajudam crianças mentalmente deficientes a vencerem suas limitações.
Os animais não deveriam ajudar o animal homem de modo algum, depois de tudo que este fez contra eles.
“Foi lhe dado, logo no início de sua vida escolar, antes a tarefa de resumir textos e colocar “as idéias principais” que a tarefa de compreender o texto e expandi-lo por meio da imaginação, criação e busca de erudição. Assim, de resumo em resumo, no afã da atividade de tornar tudo menor, mais rápido e curto, ele acabou encurtando, verdadeiramente, sua inteligência. Ficou curto mentalmente. Nada lê para criar. Tudo lê para fichar. Até seu mestrado e doutorado foi feito assim, por meio de “fichamentos”. Ele até chegou a ler um manual de metodologia científica que aconselhava o fichamento! Ele se tornou, assim, uma pessoa limitada se sem a menor idéia do que é ser um leitor. Ganhou um “Dr” na frente do nome, que o legitimou nessa atividade que ele acredita que se encaixa na universidade perfeitamente. Exibe esse seu hábito de pegar atalhos, que o torna um símio, e é assim que se comporta: exibe seu método de “fichamento”, resumo, e leitura do crime do Xerox como o macaco exibe o pênis quando vê a fêmea humana.” Paulo você esqueçeu de citar no final : “qualquer semelhança é pura coincidência”. Se bem que nossos doutos professores universiotários em sua maioria não vão passar do primeiro parágrafo mesmo, tem provinha pra corrigir rsrsrsrs.
Paulo, excelente texto.
Caro Paulo,
obrigado pelas reflexões.
Sou um leitor permanente, mas eu tenho tempo e condições para tanto (sou docente numa universidade pública). Agora, como exigir do aluno que estuda num curso noturno uma carga de leitura que, sabemos, se torna excessiva? Também não gosto da “cultura do xerox”, mas qual a alternativa para que o aluno não seja reduzido a mero consumidor – seja livros ou textos?!
Abraços e tudo de bom,
Ps.: Posso publicar o seu texto no blog da REA? Imagino que vc conheça. O site é: http://espacoacademico.wordpress.com
Sinta-se à vontade para pegar tudo daqui. Eu só faço coisa pública e distribuo. Quando ganho dinheiro, é com o livro impresso. Mantenho o blog para a comunicação rápida e para que a reflexão e o debate sejam imediatos. Obrigado por gastar tempo lendo minhas coisas, principalmente agora, comigo de volta à universidade, a UFRRJ.