Educação e trabalho – além de Marx?

24/06/2010

O cônsul romano Menenius Agrippa viveu em uma Roma dividida entre patrícios e plebeus. No ano de 503 os plebeus, revoltados contra os patrícios, se retiraram de Roma para fundar uma cidade própria. A situação ficou extremamente tensa. Os patrícios temiam a falta de mão de obra e, os plebeus, por sua vez, temiam um ataque ao acampamento deles, pelas tropas do Senado romano. Por ter origem plebéia, Agrippa foi solicitado pelo Senado para ir ter com os líderes plebeus, de modo a demovê-los da idéia de se separar de Roma. Agrippa foi até eles e realmente conseguiu seu intento. Os plebeus voltaram à cidade de Roma. Aquilo despertou a curiosidade do Senado. O que ele havia dito de tão fantástico aos plebeus? Todos queriam saber como ele havia conseguido êxito na empreitada. Agrippa disse, então, que não havia feito outra coisa senão contar uma fábula aos plebeus. Era a historieta “A barriga e os membros”.

A fábula é bem simples.

“Houve um tempo, bem no passado longínquo, que as partes do corpo não concordavam umas com as outras, como fazem agora. Cada uma tinha suas próprias idéias e sua própria voz. Um dia, algumas partes começaram a achar que era bem injusto terem de se preocupar e trabalhar duro para fornecer tudo para a barriga, enquanto que esta ficava lá no meio do corpo, sem fazer nada, só usufruindo o que era trazido para ela. Então, essas partes conspiraram em conjunto e, assim, concordaram que as mãos não iriam mais levar comida para a boca, que a boca não iria mais abrir para a comida e os dentes não iriam mais agarrar e mastigar o que recebiam. A barriga roncou e fez revoluções em protesto, mas todas as partes permaneceram ferozmente firmes na manutenção da fome, para trazer a barriga à submissão. Todavia, logo essas partes começaram a se sentir fracas. A fadiga tornou-se cada vez pior, até que elas, a barriga e todo o corpo pereceram de inanição. Então, ficou claro que a barriga, aparentemente ilhada, tinha sua própria tarefa no feito, e dava seu retorno tanto quanto recebia; ela digeria tudo e dava o alimento aos membros por meio do sangue”.

No decorrer da história, esse episódio de Agrippa apareceu comentado por muitos escritores e a fábula serviu a eles de várias formas. No século XIX, o episódio era bem conhecido das pessoas cultas e, como tal, não poderia deixar de ser do conhecimento do filósofo e agitador revolucionário Karl Marx. De fato, Marx utilizou o assunto em sua obra principal, O capital.

Marx tomou a fábula para dizer que a modernidade havia, afinal, pela divisão do trabalho, tornado real a absurda fábula de Agrippa. Um homem transformado em um fragmento do seu próprio corpo seria realmente o que teria ocorrido na modernidade. Na linha de produção moderna um homem é reduzido a uma mão enquanto outro homem é reduzido a um braço e um outro a uma parte de um cérebro e assim por diante. O novo todo unitário é, então, a própria fábrica. A nenhum homem é dado o direito de ver em seu corpo o todo unitário. Só a fábrica é o organismo total. E a maldição de Agrippa continua viva: caso cada parte da fábrica não funcione em harmonia com o todo, a fábrica pode perecer, ou talvez todo o conjunto do parque industrial e, então, toda a sociedade.

Outro filósofo alemão, também do século XIX, Friedrich Nietzsche, criou uma figura interessante, possível de ser associada àquele momento. Em seu livro Assim falava Zarathustra, há um episódio em que Nietzsche conta como Zarathustra encontrou uma enorme orelha, do tamanho de um homem. Reparando bem, Zarathustra viu que não se tratava de uma orelha solitária; presa a ela por um pequenino caule havia um homenzinho. Nietzsche fala desse minúsculo homem que, enfim, havia se transformado em uma orelha, como alguém com rosto de ódio e inveja. Realmente, o que poderia restar de sentimento a alguém com todos os seus dotes reduzidos, ficando apenas com o dote único de uma imensa orelha?

Vários pensadores do século XIX notaram tais situações. Alguns as tomaram como algo pouco feliz. Surgiram aqueles que disseram que nenhuma pessoa podia ser reduzida a uma orelha em detrimento de todo o resto de seu corpo. Marx foi um desses pensadores que buscou formas de corrigir tal situação.

Todavia, Marx nunca prometeu encontrar uma maneira que pudesse devolver o homem ao seu corpo, à sua unidade originária, mantendo a vigência do trabalho. O que ele disse é que se poderia tentar reorganizar a sociedade de tal maneira que as forças produtivas, entre estas a ciência e a tecnologia, não fossem barradas, e que então, havendo chances de se conseguir um grau avançado de automação, o homem iria ampliar seu tempo livre e, no limite, escaparia de todo e qualquer trabalho voltado à subsistência. Assim, em uma sociedade para além da dos tempos modernos, o homem poderia exercer diversas atividades, segundo seu gosto, aptidões e lazer, nas diversas partes do dia. O homem seria músico de manhã, pintor à tarde e se dedicaria à leitura e à produção de romances à noite. O modelo do intelectual renascentista apareceu no horizonte utópico de Marx como o homem que se queria produzir, realizado na sociedade re-humanizada, digamos assim.

É claro que isso nunca foi outra coisa senão utopia. Utopias, ao menos as clássicas, não se fizeram presentes para que fossem realizadas. Bem, isso até o século XIX. Mas a utopia de Marx veio à luz já em um novo tempo, quando da inauguração dos casamentos dessas sociedades imaginárias com a história. O século XIX foi uma época em que a idéia de realização histórica da utopia por meio da ação política tornou-se linguagem comum. Por isso, os que se envolveram com a literatura de Marx e Engels, inclusive eles próprios, falaram aqui e ali de uma sociedade de transição, uma passagem do mundo atual para o mundo da vida feliz.

Enquanto essa nova sociedade não viesse a se instaurar como uma possibilidade, Marx admitiu uma fase histórica na qual o homem teria, ainda, de trabalhar pela sua subsistência. Nesse caso, para Marx, seria tolice manter a fórmula da relação entre educação e trabalho dos burgueses menos ou mais liberais.

A fórmula burguesa de relação entre educação e trabalho era dupla: previa uma educação propedêutica à Universidade para os filhos dos ricos e uma educação profissionalizante para os filhos dos pobres. Marx não fez uma condenação moral isso. Ele as condenou porque entendia que era uma fórmula inútil para qualquer grupo social, mesmo sob as condições vigentes da sociedade não-rehumanizada. Isso porque a sociedade, pela força do movimento sindical e da política dos trabalhadores, tenderia a ir diminuindo as horas de trabalho e, concomitantemente, pela automação, tenderia a ir tornando os trabalhos profissionais cada vez mais fáceis de serem aprendidos. Sendo assim, a educação em termos profissionais no âmbito do ensino médio ou a educação propedêutica ao ensino superior (que por si só é profissionalizante), ainda na sociedade vigente, estaria fadada ao fracasso, ou seja, se tornaria efetivamente inútil e acabaria descartada. Então, a proposta marxista, ainda em uma situação moderna vigente de uma sociedade não re-humanizada, seria a da educação guiada pela “politecnia”, ou seja, por uma escola na qual houvesse o privilégio do ensino dos fundamentos de todas as técnicas.

Assim, na literatura de Marx e Engels, apontava-se para a situação de abolição do trabalho do homem, o que se poderia verificar a partir de uma reorganização da sociedade. Essa sociedade reorganizada não limitaria os afazeres do homem. Nessa nova sociedade, o homem se dedicaria a tudo que pudesse lhe dar o desenvolvimento completo de suas “potencialidades individuais”. Todavia, antes mesmo de qualquer apontamento na direção de tal sociedade, ainda na sociedade vigente, o que se teria em termos educacionais deveria estar pautado pela politecnia. Esta proposta se responsabilizaria pela boa educação, aquela antes articulada às bases teórico-práticas das técnicas que fincada nas técnicas propriamente ditas.

Essa proposta de politecnia não chegou a ser seriamente ponderada. Ela ficou envolta antes na idéia da utopia marxista na qual todos nós seríamos sábios renascentistas que na fase histórica em que, enfim, seríamos ainda trabalhadores.

Enquanto isso, acontecimentos políticos conduziram a pedagogia para outros rumos. No Leste, ocorreu a Revolução de 1917 na Rússia. Mas, em pouco tempo, a construção da sociedade re-humanizada se desencaminhou. Assim, a politecnia saiu da pauta, se é que chegou a ser objeto de real investigação e aplicação. No Ocidente, por sua vez, a literatura sobre a pedagogia marxista, em todas as suas variantes, entrou em baixa quase que definitivamente após as revoluções liberais do final do século XX.

Os regimes chamados de comunistas do Leste Europeu foram varridos da Terra. O que os substituiu, o chamado – muitas vezes erradamente – neoliberalismo, não manteve o seu prestígio inicial. Mesmo que mantivesse, nunca conseguiu articular forças não conservadoras em torno dele. Assim, ao terminar o século XX, todas as formas políticas geradas a partir das “energias utópicas da sociedade do trabalho” (Habermas) perderam seu charme, seu prestígio e, desse modo, tornaram as pedagogias a elas associadas, algo de pouco interesse, ao menos na linha do que vinha ocorrendo com o tema educação e trabalho.

As doutrinas do nazi-fascismo, do liberalismo, da social democracia, do comunismo e do neoliberalismo terminaram o século XX derrotadas. Todas essas doutrinas, para conseguir o prestígio que tiveram em algum tempo determinado, pediram o apoio das pessoas com a seguinte mensagem: o que se quer é reorganizar a vida a partir da reorganização do trabalho. Ora, esse apelo, no decorrer do século XX, foi perdendo o prestígio. Ao final do século XX, sobraram as variantes liberais e as variantes da social democracia, mas apenas como espectros, não como elementos fomentadores de entusiasmo. Assim, a ligação entre educação e trabalho, quanto aos seus problemas teóricos, deixou de atrair filósofos da educação e pedagogos. Sem energias utópicas não se faz pedagogia. Ora, uma pedagogia ligada ao trabalho, sem energias utópicas que possam vir da “sociedade do trabalho”, não faz sentido. Assim, se hoje pressentimos que não vivemos mais na “sociedade do trabalho” porque não vemos mais nem o trabalho e nem a reorganização do trabalho como o que pode nos ajudar a montar uma nova sociedade, fica claro a razão pela qual não temos mais nos interessado pelo tema “educação e trabalho”. Ou, quando colocamos esse tema em pauta, o fazemos antes por inércia do que, realmente, por uma motivação como tivemos no passado.

Assim, na prática, não sobra nada de novo para a política educacional. Há apenas a continuidade das velhas propostas hegemônicas, que não irão adiante. Trata-se, é claro, da manutenção da conversa sobre a escola profissionalizante e o “ensino técnico”. É isso que ocupa e que ocupará os discursos oficiais dos governantes.

Particularmente, no Brasil, é isso que veremos nas campanhas políticas para Presidente da República em 2010: em termos educacionais, algo medíocre e fora do eixo das necessidades da nossa vida contemporânea. Ouviremos a cantilena dos candidatos à esquerda e à direita que, junto da retórica de promessas vazias, falarão em termos concretos, mesmo, apenas da abertura de escolas técnicas e de institutos de educação profissional universitário ou pré-universitário. A política educacional, principalmente no Brasil, continuará um movimento inercial do regime dominante na modernidade, posto a partir do século XIX.

Podemos influir na política educacional vigente, colocando uma nova pedagogia na mesa? Temos permissão para colocar cartas pedagógicas que não estejam articuladas às questões do trabalho, ao menos não nos termos até agora postos? Temos como falar em uma pedagogia articulada a energias utópicas vindas de outras paragens que não o mundo do trabalho? Essas são as questões que estão postas para a filosofia da educação nesses próximos anos.

© 2010 Paulo Ghiraldelli Jr, filósofo, escritor e professor da UFRRJ

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