A educação pelo sangue e pela humilhação

Saturday, November 7, 2009
By Paulo Ghiraldelli

A Uniban decidiu: expulsou a menina agredida pela turba de mais de 700 alunos. No momento em que escrevo talvez isso que digo ainda não esteja nos jornais que você, leitor, consulta. Mas estará. O fato agora ultrapassa, em parte, a minha primeira análise, feita em vídeo [aqui], que ressaltou aspectos do comportamento fascista do ambiente da Uniban. O ocorrido, agora, reclama por uma intervenção da voz oficial do Ministério da Educação.

Volto ao primeiro campo, o da análise psicossocial para, em seguida, comentar o novo ingrediente.

Contardo Caligaris, na Folha de S. Paulo, tenta explicar o episódio da Uniban por meio da sua noção de “machismo”. Calligaris vê na manifestação agressiva dos estudantes a tentativa de punir o “desejo da mulher”. A regra da turba seria “a mulher não pode desejar”. Como a moça apareceu na aula com “uniforme de balada” e, portanto, ao menos visualmente, mostrou estar no campo do desejo e do ser desejada, foi punida. Esse tipo de análise, a meu ver, pode dar margem antes para o moralismo que para a psicologia social. Sei que não é essa a intenção de Calligaris, mas, não raro, os puritanos de plantão e os pouco experientes com a vida podem entender que aquele homem que, privadamente, chama a mulher de puta, durante o ato sexual – com o consentimento dela – tem o mesmo perfil de um agressor, e isto está longe da verdade. Prefiro ver o episódio como no campo de algo maior e mais complexo que aquilo que podemos entender por “machismo”.

Como disse em vídeo, vejo aquela manifestação como a incapacidade de adaptação dos jovens a ambientes novos que exigem deles uma relação sociável com o novo, com o diferente e, é claro, no caso, com o provocante. Aqueles jovens agiriam de modo semelhante diante de qualquer outro comportamento que eles identificassem como “anômalo”. Dado o primeiro passo, por iniciativa de uma liderança – “o chefe” –, e qualquer outro elemento “anormal” seria o foco da atenção e da agressão. Fato semelhante ocorreu em outra faculdade, esses dias, contra uma moça que foi chamada de “CDF”. O que desencadeou a turba foram os livros dela terem caído, coisa que não acontecia com os outros alunos que, enfim, não levavam livros na tal faculdade de Direito (!)

Considero a atitude da turba da Uniban como um comportamento mais próximo do comportamento fascista [aqui] do que simplesmente daquilo que se pode notar como “machismo”.

Mas, até aí, estávamos no comentário do episódio da agressão. Agora, há um segundo episódio. A atitude da Uniban não foi a de investigar quem agrediu a moça. Muito menos foi a de oferecer proteção para ela voltar às aulas. Menos ainda pagar os serviços de apoio psicológico profissional que, é certo, ela tem direito. A atitude foi a de expulsar a moça da escola! O argumento, pasmem, é vergonhoso. Sinto asco ao tentar escrevê-lo, mas é este: a moça teria provocado os estudantes, pois percorreu um caminho “maior do que o necessário” para chegar ao local de sua aula. O advogado da Reitoria da Uniban, sem corar, disse que a aluna “sempre gostou de provocar os meninos. O problema não era a roupa, a forma de se portar, de falar, de cruzar a perna, de caminhar” (declaração para a Imprensa).

O caso, agora, extrapola o campo das análises em psicologia social. Sai até mesmo do âmbito da filosofia da educação, pelo qual eu também o abordei no vídeo, ao lembrar as facilidades com que a Uniban se coloca no mercado, acolhendo pessoas que não poderiam ser alunos universitários em lugar nenhum. O assunto, agora, é do âmbito da organização do ensino no Brasil. O que a Uniban fez fere elementos tomados como corriqueiros e aceitos em nosso ethos educacional.

Não adianta a Uniban evocar a “autonomia universitária”. Esta não pode passar por cima dos costumes do povo, do nosso ethos que, inclusive, se apresenta em forma de lei para a própria Uniban, para que ela possa ser considerada ou não uma instituição de ensino. A transformação da vítima em culpada, que o ato de expulsão sela, é uma completa inversão de tudo que somos e acreditamos. Mesmo os mais conservadores, os que pudessem criar qualquer senão à garota de mini-saia, ainda assim deveriam entender que a agressão aconteceu. Em uma instituição de ensino, a agressão não pode deixar de ser repreendida. Aliás, a agressão teria de ter sido interrompida pela direção da Uniban no momento em que ocorria. Isso só foi feito muito mais tarde, e nem foi por iniciativa mesmo dos responsáveis pela escola. Ora, se a Uniban, agora, inocenta os agressores e, com isso, dá aval para tais atos de selvageria, ela se transforma automaticamente em um clube fechado de instrução ao fascismo. Um clube de (de)formação pela violência, pelo sangue.

Até mesmo nas academias militares em que a preparação para a guerra estava associada a exercícios de humilhação, esta prática não é mais permitida. Em uma escola comum, então, qualquer ato de humilhação coletivo, em que um mais fraco é posto covardemente na parede, precisa ser condenado, reprimido, extirpado. A Universidade não é um lugar de instrução de adulto, ela é um lugar de educação de jovens.  Ela ainda é um lugar de formação individual. E a formação profissional não está, pelas técnicas, acima de procedimentos comuns humanos, que esperamos que todos os alunos adquiram em conjunto com as técnicas, ao passar por uma escola superior. Dou um exemplo, abaixo, sobre como que técnica profissional e sentimentos morais não se dissociam.

Você é atropelada e aparece o socorro. Entra no hospital de maca, com a perna quebrada e sangrando. Como que você pode colocar sua perna, com o vestido puxado, para um médico formado em uma escola como a Uniban? Ora, você sabe que ao ver um par de coxas numa minissaia, este médico pode ser aquele que, em situações assim, começou a gritar “puta, puta, puta”. Pode não ser um daqueles 700, mas foi educado na Uniban, um lugar em que tal atitude é regra, é avalizada pela direção. Você está ali, na maca, o que passa pela sua cabeça? O que ele vai fazer com a sua perna? Vai cuidar ou vai agredir, mesmo que de uma forma não percebida conscientemente por ele próprio? Pense nesta outra situação: você entra em um consultório de dentista e na parede está o diploma da Uniban. Você senta na cadeira e o dentista olha para o seu decote. Em seguida, ele pega aqueles instrumentos pouco amigáveis para colocar na sua boca. Você sabe perfeitamente que ele está pensando “ah, mostrando as tetas heim sua puta? Vou punir você vagabunda”. E ele põe, então, os instrumentos na sua boca. E aí, você continua o tratamento?

Veja que na minha observação, não há moralismo. A frase que o tal dentista, nesta minha ficção, está pensando é “ah, mostrando as tetas heim sua puta? Vou punir você vagabunda”. Esta frase, do modo que eu a coloco, não está no registro de um comportamento que diria “eu namoro com essa mulher ousada, essa gostosa”. Não! Não estou falando do homem que observa a mulher e que gosta, e que a deseja, mas que sabe que se ela se apresentar com aquele decote para outros homens, ela não pode ser punida por isso. Estou falando do selvagem da Uniban que, vendo o diferente, quer eliminá-lo do local, porque o diferente mostra a ele a sua incapacidade (inclusive às vezes, sexual), a sua origem menor, sua pequenez no ambiente novo, no caso, o ambiente universitário para o qual ele não estava preparado.

O Ministro da Educação atual, Fernando Haddad, é jovem professor da Universidade de São Paulo. Conheci-o aqui em minha casa. Sei que ele leu os teóricos da Escola de Frankfurt e que pode muito bem entender esses meus argumentos. Além disso, mesmo que não fosse quem é, seria alguém que, por obrigação, teria de conhecer a legislação educacional. O que a Uniban fez não pode tem como ser permitido. O caso não é um mero caso de “disciplina interna”. Extrapolou isso. Temos de ouvir uma palavra do MEC de condenação firma à Uniban.

© Paulo Ghiraldelli Jr. , filósofo http://twitter.com/ghiraldelli

São Paulo, 07 de novembro de 2009

Paulo Ghiraldelli Jr é filósofo e escritor. Doutor e mestre em filosofia pela Universidade de São Paulo (USP). Doutor e mestre em filosofia da educação pela Pontifícia Universidade Católica de S. Paulo (PUC-SP). Tirou seu “pós-doc” pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), sua livre docência pela Unesp, onde também foi o professor titular concursado. Atualmente, Paulo Ghiraldelli Jr. dirige o Centro de Estudos em Filosofia Americana.

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Philosopher/Filósofo

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19 Responses to “A educação pelo sangue e pela humilhação”

  1. [...] Tweets about this great post on TwittLink.com [...]

    #57
  2. [...] A educação pelo sangue e pela humilhação, um post de Paulo Ghiraldelli, além do vídeo que ele já tinha produzido [...]

    #58
  3. essa questão demonstra uma estupidez impagável.
    não percebo…não percebo mesmo!

    abçs

    #59
  4. Madalena Loureiro

    Olá Paulo,
    Sem comentários.
    Vou repassar o teu texto, se vc permitir.
    Além de tudo, a Uniban é hipócrita.
    Se queria que os alunos tivessem um comportamentos mais formal em relação às roupas, deveriam ter colocado regras para evitar possíveis problemas. Acho que seria mais digno de se fazer.
    Neste caso, eu considero o acontecido uma completa bárbarie e falta de respeito ao ser humano e à mulher, ainda que ela fosse uma prostituta.
    Abs
    Madalena

    #60
  5. Por favor, repasse, é o mínimo que podemos fazer para reagir é escrever e nos remeter uns aos outros, embora eu tenha alertado também o MeC.

    #61
  6. Márcio Luiz dos Santos Ewald

    Professor Guiraldelli
    Somente temos a lamentar que este fato tenha ganhado este desfecho com a expulsão (exclusão) de uma aluna. Observando o fato sem moralismos ou éticas mal resolvidas ou comprendidas, podemos concluir que aconteceu um pre-conceito em relação a este personagem. Todos falavam da sua roupa, das suas intenções, antes ou depois de ir para a faculdade e agora por falta de caráter de uma turba de alunos de que podemos dizer, são neantertais, pela falta de evolução de seu pensamento evolutivo, pois estão parados no tempo em que o macho mandava e a fêmea obedecia. Os valores éticos de cidadania estão sendo reconstruídos pela força da lei mas as cabeças não estão acompanhando a legislação ou pior, esse tipo de pessoal não lê, não entende e pior, diz que sabe ensinar e aprender.
    É o triste fim de quem diz que sabe e nós que afirmamos que ainda não sabemos temos de ver esta selvageria comportamental dentro de muitas de nossas faculdades onde se dizem estarem pessoas com nível superior. superior na salário da família mas, inferior na mentalidade moral
    Vamos aprender mais com esses fatos e olhar para as nossas faculdades abarrotadas de rebanhos, como nos lembra Nietzsche
    Um abraço a todos e todas

    #62
  7. Mauricio

    Completo absurdo.

    E os profissionais que lecionam psicologia, filosofia, direito nessa universidade. Eles compactuam com essa atrocidade ??
    Que diabos eles fazem no meio acadêmico ??
    Eles são tão ruins a ponto de não aceitarem uma
    garota que usa saia em suas aulas.

    #63
  8. Mais um ótimo artigo Paulo!
    Nos resta repassar, e lutar contra isso,
    como podemos, escrevendo debatendo e, tentando
    enfiar na cabeça de algumas pessoas, que o caso,
    não é a roupa, nem se a garota provocava ou não,
    e sim que tal manifestação, não deve acontecer,
    independente da vida pessoal da menina, ou como
    ela se mostra no seu dia-a-dia, os mais de 700
    alunos não poderiam de maneira alguma ter aquele
    tipo de atitude, machista, fascista e cabe aqui,
    mentalmente pobre! Agora, a “Unigrana” foi além
    da lámentalvel atitude da turba, expulsando a garota; se mostrou o Maestro dessa decafonia muito repugnante, e que da a entender que essa melodia terminada, terá como seu refrão a espressão “Sieg Heil”! Vergonhoso! Cade o Fernando Haddad?
    Divulgar esse artigo! Vamos amigos!

    #64
  9. Temos que lançar uma campanha:
    NÃO CONTRATE ALUNO FORMADO NA UNIBAN.

    #65
  10. J.Bosco Ferreira V.

    Prof Paulo Ghiraldelli, no nosso grupo de teatro, Epica Cia de Criação discutimos seus postes e seus videos aos sábados pela manhã. Nesse caso especialmente vamos dicuti-los com alguns convidados numa forma de torna-los públicos.

    #66
  11. Olá Professor Guiraldelli

    No momento em que comento seu Post, vejo a notícia no anuncio do JN, UNIBAN recua na expulsão.
    O que marcou em minha percepção foi o que minhas retinas captaram sob um outro olhar.
    Os alunos que “repudiavam?” a garota, a transformaram em Mártir, a UNIBAN demonstrou em uma série de ações equivocadas e desastradas que não tem uma equipe, setor especializado e profissionais em relações públicas, marketing, imagem e reputação, conseguiram ridicularizar a própria imagem.
    Fiquei surpreso com a expulsão e novamente com o recuo, um dano para credibilidade dos alunos, envolvidos ou não.
    Uma série de equívocos de todos, mas que ao meu ver danificou e expôs a fragilidade da instituição.

    Seu Blog foi indicado por um seguidor no Twitter, não o conhecia, achei muito feliz o seu Post e meus mais sinceros parabéns.

    Grande abraço

    #67
  12. Prezado Prof. Paulo,

    Permita-me fazer referência ao seu vídeo no meu blog que estou acabando de iniciar.
    Sou estudante de Direito em Campinas e o assunto me interessa.
    Excelente o seu vídeo professor. O restante da minha turma precisa ouví-lo nesse vídeo.

    Um grande abraço.

    #68
  13. olavo

    “vejo aquela manifestação como a incapacidade de adaptação dos jovens a ambientes novos que exigem deles uma relação sociável com o novo”

    nossa, quanta merda vc escreve…

    #69
  14. Ainda fico sem saber o que motivou um levante daqueles, mas gostei da ideia de que mesmo sem saber o porque devemos dizer não à agressão, se a moça quis ou não se mostrar sensual, não deveria receber punição daquela forma. Se ela estava se portando inadequadamente o certo seria ser advertida em particular.

    Então não tem desculpa para o que houve, não tem justificativa social ou psicológica. A turba tem que ser interrompida. E a moça protegida, mesmo que ela tenha responsabilidade sobre o fato.

    O que aconteceu é o mesmo em caso de estupro, no qual a mulher é culpada de ser atraente ao agressor. E isso deve mudar!

    Abraços!

    #72
  15. Acho que não é difícil de saber, após meus vídeos e artigos. Viu os vídeos?

    #73
  16. Uma boa ajuda para a filosofia! Obrigado!
    Paulo

    #78
  17. [...] por colegas que a chamaram de “pu-ta, pu-ta, pu-ta” (e, depois, expulsa da universidade) (meu texto e vídeos aqui). Nos dois casos, o comportamento erótico foi tão enfatizado pelos analistas e pela mídia, em um [...]

    #138

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