O inventor do twitter de Serra foi Collor

Os partidos são elementos próprios das democracias. Os populistas e os tiranos, tanto na esquerda quanto na direita políticas, odeiam os partidos. Eles fazem tudo para eliminar os partidos, pois estes obrigam as coisas a funcionarem por discussões, acordos, comissões e negociações. Os populistas e tiranos, se puderem, encerram os partidos. Caso não possam, tentam mantê-los sob seu domínio completo. A idéia do populista e do tirano é falar diretamente com “o povo”. Ele e o “povo” são irmãos, e o resto é interferência que “retarda” as realizações “necessárias para a nação”.
Hitler e o rádio surgiram quase juntos. O rádio deu aos tiranos e populistas a primeira chance de passarem por cima dos partidos de um modo realmente eficaz e aparentemente sem sangue. Nasceram os discursos intermináveis. A idéia básica era a de preencher o tempo e os ouvidos. Onde “o povo” estivesse com algum momento livre, então, que estivesse ouvindo a voz do “pai da nação” ou do “vingador” ou do “salvador”. Fidel Castro levou às últimas conseqüências isto: usou do rádio e também do tempo. Seus discursos ficaram famosos por durarem horas e horas. Alguns chegaram a durar um dia todo!
Quando entrou a TV, os tiranos e populistas tiveram de mudar a tática, adaptando-a à nova técnica. A TV exigiu fala curta e objetiva. Eles demoraram um pouco para se adaptar, e houve toda uma fase de transição nisso tudo.
A fase velha, do rádio e o discurso longo, no Brasil ela começou com Vargas. Ele foi as duas coisas: ditador e populista. E ocupou os dois lados: foi ditador de direita e depois populista de esquerda. Mas nós só entramos na fase nova, realmente, com Fernando Collor. Este foi tudo ao mesmo tempo: populista à direita e às vezes à esquerda, e ao mesmo tempo utilizador exímio da TV: fala curta, direta, vazia e cheia ao mesmo tempo. Aparecia como o vingador, ou seja, como o “caçador de Marajás” e, ao mesmo tempo, endinheirado pela Rede Globo, furou o cerco dos que corriam, mal ou bem, pelo eixo democrático. Assim, a Fiesp e os jardins paulistanos não tiveram coragem de apoiar Covas, que lhes pareceu à esquerda demais na época, e os sindicalistas foram minados por dentro pela Força Sindical quebrando a coluna dorsal da CUT. Mas restava Lula. Para derrotá-lo, Collor fez o que tinha de fazer: colocou a bandeira do Brasil no peito e se apresentou corporalmente esguio, deixando o gordo, baixo e feio Lula com uma estrela vermelha no peito. Já era o prenúncio do que viria: o governo do corpo, do rápido, do não pensamento e da não discussão.
Uma vez eleito, Collor inventou o twitter: a comunicação rápida com “o povo” através de frases, sem dar bola para o parlamento ou partidos. A cada dia aparecia com uma mensagem de twitter estampada na camiseta que usava de manhã, para correr. A cada dia dizia uma frase de comando ou uma frase do que sentia ou frases de entretenimento. Caso Collor tivesse feito um “mensalão”, como este que Zé Dirceu e Lula arquitetaram (e que o PSDB também fez com seu chefe, o senador Azeredo, usando o mesmo Marcos Valério de Dirceu), Collor estaria até hoje governando o Brasil. Naquela época uma valerioduto calaria o Congresso e, talvez, tudo ficasse tardio e, assim, o irmão, o Pedro Collor, viria a morrer antes de poder dedar alguma coisa. Tudo daria certo para Collor. O próprio Collor, anos depois, ao aconselhar Lula disse isso: meu erro foi não dar bola para o Congresso – não faça isso. Collor não disse isso como quem diz: lide com o Congresso democraticamente. Ele disse como quem poderia dizer: “não deixe o Congresso sem alimento”.
Collor sabia twittar bem. O que ele não tinha era sorte. Aliás, ninguém tem a sorte de Lula, que deixa FHC até hoje irritado por causa disso. Mas o caso, aqui, não é Lula, é o do twitter do Collor.
É que o twitter da camiseta de Collor, feito antes mesmo da Internet, fez escola. José Serra não conseguia nem passar e-mail. Careca, defasado, incapaz de rir até mesmo das piadas fáceis do Jô Soares, Serra fez um esforço inaudito para tentar deixar de ser um tecnocrata turrão e virar um governador que quer ser Presidente. Não ficava bem para ele, com aquela barriguinha, tentar uma comunicação direta com o povo como Collor. E nem mais é tempo de sair de camiseta por aí, correndo de manhã. Só enfartado faz isso. Então, Serra, aprendendo com Collor, começou a tentar usar o twitter. Fez alguns cursinhos com técnicos do exterior trazidos pelo PSDB (isso é uma piada, caros tucanos! – ai se a gente não avisa os bicudinhos!). E agora está aí, Serra, o aprendiz de Fernando Collor, tentando se comunicar noturnamente com seu eleitorado, sem partidos, sem intermediários. Se não é um hitlerzinho eletrônico então é, ao menos, um tipo de caricatura de Collor.
Serra aparece no twitter, fala de filmes que não viu e de livros que desconhece. Collor fazia isso – punha um dicionário de política de Norberto Bobbio embaixo do braço para tirar fotos. Depois, ainda no twitter, Serra conta de jantares com pessoas que a juventude de classe média gosta, como o próprio inventor do twitter. Fala também algumas quase verdades sobre realizações governamentais que, se foram feitas, foram feitas com dinheiro federal. Enfim, em alguns momentos, atende chamados de senhoras paulistanas, dos Jardins (o lugar onde vive a elite paulista), ou de nordestinas previamente arrebanhadas pela assessoria para entrar no twitter. Tudo com aquela espontaneidade (!) que caracteriza o PSDB.
A idéia básica de Serra é a seguinte: fazer charminho populista para a classe média mais ou menos escolarizada, e que, então, pensa estar conversando diretamente com o governador. Surge aí o fantasma do tirano e do populista, a conversa direta, sem intermediários. É o renascimento de Collor. Um Collor que não pode colocar camiseta, que não fica bem em fotos – pois é careca e parece um vampiro –, mas que, ainda assim, é Collor – não é Cova não, pessoal! E Serra conta com uma vantagem fantástica: Collor havia sido deputado de direita, Serra vem fingindo ser da esquerda democrática desde o tempo em que foi presidente da UNE.
Serra será o Presidente do Brasil, caso não se possa contar com Ciro Gomes ou com Marina Silva, uma vez que Lula, como todo homem inseguro, investiu em uma medíocre rejeitada por todos – a Dona Dilma – para ser sua sucessora. Ciro ou Marina, uma vez na Presidência, não iriam fazer pacto com Lula para que ele volte, depois, em um terceiro mandato. Serra já fez este pacto com Lula. Eles conversaram, nas vésperas da eleição do primeiro mandato de Lula, às escondidas. A imprensa noticiou o fato. E a conversa sobre “cada um na sua vez” foi um dos temas daquela reunião, naquela época.
Assim, aguardem amigos: Serra no governo federal será a direita novamente lá, e com os bilhetinhos de Jânio Quadros – via twitter. Só falta agora Serra chegar a Brasília e, nessa síndrome bilheteira de Jânio, começar a beber e, depois, renunciar. Ah, quer saber, será melhor, seja quem for o vice!
Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo.
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