Da (falta de) etiqueta de Deus

Monday, November 2, 2009
By Paulo Ghiraldelli

“Quando um burro fala o outro murcha a orelha” – esta era a forma pela qual meu avô, um bom rábula, tentava reforçar o a admoestação de minha mãe sobre a minha conversação na mesa do jantar. Ela dizia: “quieto que seu avô está conversando com seu pai, não interrompa”. Meu pai nada dizia. Mas meu avô, para me dar atenção e, ao mesmo tempo, poder retomar a conversa com genro, utilizava desse expediente. Não era para que eu abaixasse a orelha como um burro isolado, solitário, mas sim acompanhado por ele mesmo, que se punha como um igual a mim na condição de burro. Eu era tão pequeno que não entendia direito a brincadeira dele, mas ela funcionava. Anos mais tarde tentei isso com meus filhos. Devo ter feito algo errado ou, talvez, aquilo só pudesse funcionar dentro do triângulo eu-mãe-avô, pois com meus filhos as coisas foram muito diferentes.

Essa idéia de que uma conversação não se interrompe e, ao mesmo tempo, de que não é por isso que não se pode dar atenção a todos, foi uma das lições que ficou do meu avô. Não à toa, cresci odiando aqueles que dizem “espere eu falar, depois você fala”. Essa prática da academia, de pseudocivilidade, nunca serviu para mim. O certo seria agir como agia meu avô: pode-se intervir sim, cortar a conversa, e o incomodado pode dar uma atenção a quem interrompeu e retomar a conversa com o outro logo em seguida. Esse traquejo da conversa de bar, meu avô a possuía como ninguém. A academia nunca conseguiria aprender isso. Era possível para meu avô fazer tal  coisa porque ele tinha um olhar tão sincero que mesmo eu, criança, que não estava bem entendendo a questão do “burro” ali posta, acabava por ver que não era errado eu intervir, mas que também não era correto eu intervir para quebrar a conversa de vez. Que coisa! Quando se tem um bom mestre, o mais sutil dos ensinamentos é possível de se fazer! Meu avô era um bom mestre.

Meu avô Carlos se foi. Minha avó Maria também. Meu pai também. Da família original, ficaram eu e minha mãe. Moro hoje com uma esposa que amo, uma terceira esposa. Sem os filhos que, chegando à adolescência, obviamente voltaram cada um para suas respectivas mães. Será que a adolescência deles um dia irá passar?

Durante anos fiquei irritado ao lembrar dos mortos de casa. Sentia aquele tipo de saudade amargurada. Sim, saudade mista com irritação. Não sabia a razão. Bem, eu imaginava que era a falta dos entes queridos mortos, ou seja, um luto que nunca se resolveu muito bem ou coisa parecida. E assim os anos se passaram. Mas, recentemente, ao preparar um texto para um colóquio a respeito da filosofia do meu amigo Richard Rorty, eu me deparei com a noção de “conversação contínua”. Como Rorty a viu, a filosofia seria uma conversação contínua, que jamais poderia ser parada pela fala de alguém que viria dizer “olha, acabou, o assunto acabou – eis aqui a chave que se pedia e pronto, com ela, o problema em questão está resolvido”. Não! Rorty ensinou que isso não é algo que podemos fazer. Então – e só então – comecei a entender o que eu sentia quando sentia saudade do meu avô, da minha avó e do meu pai. A saudade era irritante por uma simples razão: Deus não soube agir corretamente, não soube entender do modo como eu gostaria que Ele entendesse o recado do meu avô.

O modo como Deus entrou na conversa não foi aquele que eu entrava. O modo como aprendi acabou logo por permitir cada vez mais que meu avô não precisasse me admoestar como minha mãe fazia e, sim, colocar de modo inteligente e generoso a frase “quando um burro fala o outro murcha a orelha”. Mas Deus não teve essas possibilidades de aprender. Deus entrou de maneira espalhafatosa, infantil demais, de modo a não dar chance para que eu pudesse utilizar da técnica de meu avô. Antes que eu pudesse dizer “calma, quando um burro fala o outro murcha orelha”, Ele invadiu a conversa e me tirou o interlocutor. Ora, mas a conversa não havia acabado! Que falta de educação de Deus ao invadir uma conversa minha com meu pai, que não havia terminado, levando-o embora e me deixando aqui, com um monte de palavras na boca e um ouvido finalmente grande para ouvir. E o pior, Deus fez isso com minha avó e com meu avô também. Aliás, com o meu avô Deus foi matreiro, pois sabendo que ele tinha esse estratagema de segurar a conversação com vários, inclusive por meio do “quando um burro fala o outro murcha orelha”, Deus veio buscá-lo no sono. Só se pega um bom rábula para tirá-lo de uma conversa se ele está dormindo. Foi o que Deus fez, na sua total falta de etiqueta.

Ethos é costume, hábito, atitudes semelhantes. De ethos vem ética. Vem também etiqueta. Ora, etiqueta é pequena ética, isto é, hábitos pequenos que não servem para dizer quem somos a nós mesmos, como é o caso da ética, mas funciona para dizer quem somos para os outros, em situações bem determinadas. Uma conversação moderna, gerada no mundo burguês em que o mercado põe todas as principais regras, a etiqueta ganha uma característica especial. Ela é uma devedora da etiqueta da Corte, mas aplicada, então, a todo o burgo. Eis aí uma etiqueta: “quando um burro fala ou outro murcha a orelha”. Não se deve dizer isso, mas o comportamento deve ser segundo a vigência desse expediente, de modo a criar as interrupções que não são grandes barreiras, são apenas tempos de respiração para se integrar mais gente na conversa ou esperar mais um pouco.

Essa etiqueta jamais perdoaria aquele que em uma conversação, sem mais, interrompesse o que estava falando e fosse embora. Essa etiqueta, é claro, perdoaria menos ainda aquele que ao chegar para uma roda de três pessoas, pegasse uma pelo braço e, sem satisfação para a outra, fosse embora com o parceiro. Sim, isso é coisa sem etiqueta. Eis o que Deus não tem: etiqueta. É a falta de Deus quanto à etiqueta que sempre me irritou. Nunca achei polido ou mesmo inteligente da parte de Deus entrar na minha conversa e levar meu avô, minha avó e meu pai. Nunca engoli essa incapacidade de Deus de lidar com regras pequenas – etiquetas. Hoje eu percebo porque minha saudade nunca foi uma saudade boa, sempre foi diferente, incômoda. Sempre foi uma mágoa por ter sido posto no enfrentamento de alguém que, não tendo possuído avô, nunca foi introduzido no mundo da etiqueta. Não estou falando que gostaria que Deus fosse de uma polidez que eu mesmo, como filósofo, não posso ter – seria um hipócrita e um não filósofo se a tivesse. Mas, certa maneira de agir, que permitisse o “quando um burro fala o outro murcha orelha”, para que as conversas não ficassem atrapalhadas, isso sim seria bem útil.

© Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo

São Paulo, 2 de novembro de 2009, Dia de Finados

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17 Responses to “Da (falta de) etiqueta de Deus”

  1. Social comments and analytics for this post…

    This post was mentioned on Twitter by ghiraldelli: Para o Dia de Finados, especial: http://ow.ly/yxzC...

    #27
  2. Interessante! Meu avô, ainda vivo, sempre me diz isto: “Quando um burro fala, o outro murcha a orelha”; sempre me senti muito repreendido quando ele falava isso. Em geral, nunca mais (por pouco tempo) eu o interrompia em suas conversas – Coisas de criança!

    #28
  3. Bem, meu avô era um rábula.

    #29
  4. SantarossaMarCy

    Ah Paulo, voce me fez chorar, me identifiquei tanto com seu texto, que se eu tivesse o dom de expressar meus sentimentos tão claramente como voce, eu o teria escrito. Eu faria tudo para ter meu pai, meu avós de volta! Sou a mais velha de quatro irmãos, e tinha quase dezessete anos quando Deus nos deu o primeiro susto de verdade, roubando meu pai com apenas 44 anos. Daí em diante foram mais perdas dolorosas. As vezes penso, vivi mais tempo que ele! Hoje com quase 54 anos, com uma vida familiar em parte parecida com a sua, quando chega a nostalgia eu digo “que eramos felizes e não sabíamos”. Deus escreve certo por linhas tortas? Ou escreve torto em linhas certas? Um abraço.

    #30
  5. Que texto lindo! Que avós maravilhosos e, sim, eu acho que tb não perdoo Deus por motivos semelhantes. E os filhos que vão embora, claro, cuidar de suas vidas. Vejo, que, em nosso mundo,pouca gente sabe desse ditado, às vezes somos forçados a gritar para sermos ouvidos e não deixar que as conversas fiquem atrapalhadas.Como é importante ter bons mestres ! Bjs

    #32
  6. Márcia, obrigado pelo carinho de ler. Sempre encontro pessoas como você que podem ainda sentir. Ainda somos felizes, agora, aposte! Pois estamos vivos de verdade. Muitos jovens estão apenas andando, não vivos.
    Paulo

    #34
  7. Essa retirada brusca é algo que a gente não se conforma, é uma regra da vida, a forma como ela se coloca, incompreensível para quem tem uma visão apenas do período entre nascimento e morte.

    De qualquer forma, parece sim falta de polidez, sermos interrompidos assim sem aviso nem pedido de permissão…

    Abraços!

    #35
  8. [...] Tweets about this great post on TwittLink.com [...]

    #36
  9. MAria Alice

    Por isto amo as palavras quando capazes de bem revelar pensamentos, sentimentos e idéias.Como é possível alguém falar de forma tão filosófica e poética do lado mais difícil da perda? Mais difícil do que ficar falando sozinho,é ficar pensando sozinho, sentindo sozinho; parece que só o silêncio é imortal. Quantas vezes pensei ” Como Deus não percebia o quanto ele era importante para mim e para tantas pessoas?” POr outro lado, temos o consolo das idéias escritas. Estas não podem ser interrompidas, graças ao homem. E ninguém irá dizer: quando um burro escreve, o outro lê a orelha.

    Muito bom, Paulo. Filósofo parece água. A princípio parece pouco, mas vai embrenhando e sacia.

    #37
  10. MAria Alice

    Eu deveria ter escrito “filosofia parece água”. Ficaria melhor. Ou talvez a palavra do filósofo.
    Melhor cancelar.

    Abraço.
    Vou rir até amanhã…

    #38
  11. estou de orelhas murchas…

    #39
  12. Também quero falar do meu avô, a quem imito os gestos. Em meio a tantas histórias, vez em quando ele repete

    - No meu tempo não se perguntava sua profissão. Se perguntava “qual a sua arte?”.

    Desde então tenho uma dificuldade terrível em aceitar os ditos do mercado de trabalho.

    #40
  13. Também quero falar do meu avô, a quem imito os gestos. Em meio a tantas histórias, vez em quando ele repete

    - No meu tempo não se perguntava sua profissão. Se perguntava “qual a sua arte?”.

    Desde então tenho uma dificuldade terrível em aceitar os ditos do mercado de trabalho.

    São os mestres.

    #41
  14. São raras as vezes que eu assino um “Leave a Reply” com tanta alegria. Texto bacana, que baila na tela pra trazer a emoção a tantos olhos afoitos por respostas desta forma indelicada com que Deus arrumou de nos fazer ficar de boca aberta – sem palavras – nos dois lados desta moeda. Primeiro a história em si, depois pelo talento com que é revestido.

    Obrigada por partilhar tão singelo sentimento. Parabéns pelo dom.

    #42
  15. Valéria, fico feliz que tenha gostado. Aceite meu convite de vir para http://ghiraldelli.ning.com e acompanhar meu trabalho e escrever um pouco! Pode ser?

    #43
  16. A arte e a “nossa arte” caiu também para o mercado, faz tempo. Ojú, venha para http://ghiraldelli.ning.com . Você vem? Venha acompanhar meu trabalho e escrever um pouco.

    #44

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